Um brinde pela resistência da ciência

O Pint of Science tem sua quinta edição no Brasil num cenário político que pouco favorece a ciência, a educação e a pesquisa – e é por isso que ele é ainda mais importante agora que nos anos anteriores.

Foto: Oxford Neuroscience

Três dias, quatro continentes, 25 países. Pessoas reunidas em mesas de bar no mundo todo por três noites por um mesmo motivo. Poderia ser algum grande evento esportivo, com essa mobilização toda, mas não foi.

Entre os dias 20 e 22 foram realizadas as atividades do Pint Of Science, um dos maiores festivais de divulgação científica do mundo – se não o maior deles. A ideia dos britânicos Michael Motskin e Praveen Paul consiste de conversas entre o público geral e pesquisadores sobre as pesquisas mais recentes destes, sem necessidade de conhecimento acadêmico prévio por parte do público. Já tem seis anos desde que o Pint aconteceu pela primeira vez, na Inglaterra, e quatro anos desde que uma professora da UFSCAR decidiu trazê-lo para o Brasil.

O ano de 2019 foi sem dúvida o maior ano para o festival, que começou com apenas três cidades no Reino Unido. Na última semana, 300 cidades tiveram alguns de seus bares tomados por gente interessada em debater os mais variados assuntos que preocupam a ciência, da emergência do terraplanismo, tema de uma noite em São José dos Campos (SP), aos bebês editados geneticamente, assunto abordado na Cidade do Cabo (África do Sul). Só no Brasil foram 85 cidades recebendo o evento, o maior número entre todos os países participantes.

Belo Horizonte, capital dos bares e lar de grandes instituições científicas, foi uma dessas cidades. A coordenadora regional Marina Andrade destacou a importância de se levar as pesquisas científicas para serem vistas e conhecidas pelo público geral e de como o Pint colabora pra isso:

O Pint é um evento que conta pras pessoas o que é o ofício do pesquisador. Como a maior parte das nossas pesquisas são financiadas pelas instituições públicas, é importante a gente saber pra onde vão os nossos impostos. É muito importante pras pessoas saberem o que os cientistas fazem, aquilo com que a gente contribui com nossos impostos.

Esse é o objetivo primário do Pint of Science, mostrar à população de a pesquisa científica tem resultados e impactos maiores do que a gente imagina, mas, este ano, a importância do evento parece ter aumentado no cenário que atravessamos no Brasil. Num movimento cada vez maior de desmonte financeiro da pesquisa, das universidades e da educação, combinado a uma crescente onda de descredibilização da ciência que abre espaço para práticas nocivas e pseudociências, a ciência brasileira fica fragilizada – e fechar-se dentro dos muros das universidades só contribuiria para isso. O Pint oferece a tão necessária oportunidade dos cientistas dialogarem diretamente com a população sobre temas que interessam a ambos, como nos disse a coordenadora:

Na escolha das temáticas pros bares a gente tem essa preocupação de pensar em painéis que tenham ligação com a atualidade – a gente teve ontem mesmo [terça-feira] o painel sobre vacinação. As temáticas do ano do Pint são muito ligadas às temáticas atuais. É um “o que a ciência tem a dizer sobre isso?”. O Whatsapp, as fake news, o amigo têm muito a dizer sobre tudo, mas o que a ciência tem a dizer sobre vacina, Terra plana, doenças importantes – o TDAH, por exemplo, as ditas “doenças da modernidade”, né?

Nessa edição do PoS, não leva muito tempo para notar esse cuidado em trazer temas de interesse público. Em São Paulo (SP), por exemplo, um dos temas foi “Como falar de ciência no grupo da família”, grupos esses que já foram reconhecidos como os maiores espaços de disseminação de fake news e que têm sido amplamente utilizados para manchar a imagem de universidades e pesquisadores. Em Itajubá (MG) se discutiu mudanças climáticas, que vêm sendo negadas inclusive por políticos como Donald Trump, a despeito de toda evidência científica sobre o assunto. Em Manaus (AM) um dos temas foi a biodiversidade amazônica, que está ameaçada por um governo que parece não se importar com questões ambientais. Enfim, de norte a sul do Brasil centenas de temas foram discutidos por milhares de pessoas numa configuração fora da usual – de um lado, a sociedade fora dos grupos do Whatsapp e podendo questionar os cientistas por conta própria, de outro, os cientistas mostrando seus feitos sem todo o aparato e linguajar técnico das revistas e congressos científicos.

Casa Híbrido em BH, dia 20. Foto: Pint Of Science.

A divulgação científica eficiente, que ultrapassa os limites das comunidades de pesquisa, é um caminho certeiro contra a desinformação. Os convidados do Pint se expõem às dúvidas e interrogatórios do público, que quer saber mas que não está nos círculos onde a informação científica circula. Estabelecer uma relação mais próxima, amigável e compreensível entre cientistas e sociedade protege, de uma vez só, tanto a ciência – que pode esclarecer seu lugar, sua importância e o que faz com os investimentos públicos – quanto o povo – que, munido de informação, tem menos chances de se deixar levar por mentiras como as do movimento antivacina ou dos promotores do uso de dióxido de cloro como cura milagrosa.

Os envolvidos com a realização do Pint tomaram para si a importância da defesa da ciência muito além da definição de temas relevantes para as discussões. Sem se esconder atrás de um discurso mais sutil ou que minimizasse o situação cada diz pior da ciência brasileira, a carta da organização, lida ao fim das noites do Pint, se encerra da seguinte maneira:

Toda essa comunidade Pint of Science hoje tem um objetivo comum, bem maior do que a cerveja: garantir que tenhamos o que celebrar em 2020 e por muitos mais anos.

Fazer ciência no Brasil nunca foi muito fácil, mas hoje estamos à beira de um colapso, com instituições vivendo na incerteza de chegar ao fim do ano – ou do semestre. Ainda assim, a ciência resiste – e brinda a si mesma, repleta de motivos.

 

Maria G. Lara

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