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Rodada de quarta

Ciência e futebol ocupam bar no ultimo dia do Pint of Sciece 2019 de Belo Horizonte

Quarta é dia de futebol! A população brasileira que apaixonadamente abraçou o esporte bretão sabe disso. E assim, boleiras e boleiros de todo país fizeram do meio de semana mais um dia pra respirar futebol. E Belo Horizonte é uma cidade propícia para vivenciar essa paixão. Com 2 estádios de padrão internacional, 3 grandes times e centenas de bares, o coração da capital de Minas Gerais pulsa, pelo menos 2 vezes por semana, nas chuteiras, no gramado, e nos gritos da torcida. Você pode até não ver graça nos 22 caras correndo atrás da bola, mas uma hora ou outra sua atenção, e até sua emoção, será capturada por um canto da torcida, um jargão de narrador, uma velha história dos gramados.

Se a rotina do futebol muda um dia, dá um certo vazio. Sem jogo do seu time pra torcer, jogo do rival para secar ou jogo daquele time que todo mundo gosta pra comentar, o torcedor procura uma alternativa, qualquer uma, até a Série C serve. E esse seria o cenário da última quarta, dia 22 de maio. Sem rodadas de Cruzeiro e América no meio da semana, e com a partida do Atlético adiantada pra terça, restaria ao belorizontino acompanhar o distante Athletico Paranaense X River Plate. Mas um bar da Zona Sul resolveu manter o futebol de quarta com os talentos de BH mesmo. Na equipe dois craques: Eduardo Pimenta e Varley Teoldo da Costa, pesquisadores e professores do Departamento de Educação Física da UFMG, para falar sobre a ciência no/do futebol.

No inicio da noite os torcedores chegaram ao bar Albanos e, como de costume, ocuparam as mesas em torno das enormes telas de LCD, que às quartas feiras costumam exibir os lances dos gramados. O chute inicial foi dado pela organização do evento que desde o inicio da semana fazia ciência nos bares: o Pint of Science 2019. Marina Andrade, com o microfone em mãos, lembrou que assim como o futebol, o festival de ciência nasceu na Inglaterra, e assim como em Belo Horizonte, os bares por lá são espaços comuns e propícios para aproximar as pessoas.

E segue o jogo! Eduardo e Varley tabelaram entre a fisiologia e a psicologia do esporte. Com experiência na pesquisa e no ensino, realizadas no dia a dia da universidade, e na prática, forjada nos centros de treinamento de Atlético, Cruzeiro e da Seleção Brasileira, eles mexeram com a emoção dos torcedores, mas de um jeito diferente. Ao invés daquele misto de angústia, excitação, alívio e felicidade que aparece no rosto da torcida durante os 105 minutos de jogo (e intervalo) eram expressões de surpresa que pipocavam nas mesas.

Eduardo Pimenta mexeu com o ego do torcedor que sempre quer o atleta de salário milionário com altíssima produtividade. Apresentando toda a tecnologia que monitora a condição física do jogador, mostrou porque vez ou outra é preciso poupar o atleta. Já Varley Costa falou de todas as crianças e adolescentes que desde as categorias de base se aventuram na fábrica de sonhos e ilusões que é o mundo do futebol. Mostrou que a ciência tem tentado entender e ajudar os times a encontrar os atletas mais talentosos nas dezenas de peneiras. Além disso, de como, junto às famílias lidar com os jovens que ficam no caminho.

Eis que a torcida entrou em campo! E, sem nenhuma contenção por parte da segurança, levantou a bola, com perguntas, para chutes em direção ao entendimento maior dos processos do futebol. Algumas bolas estufaram as redes. As descobertas e os avanços da ciência já mudam a rotina do futebol. Se, anos atrás, contassem ao Pelé que os jogadores teriam mapas de movimento todo fim de jogo para melhorar seu desempenho pessoal e o rendimento para a equipe, será que ele acreditaria? Outras bolas bateram na trave. Mas é assim a pesquisa. Contínua, constante, múltipla, com erros e acertos. Faltam dados para confirmar ou rechaçar hipóteses, falta apoio para continuar pesquisando. E ainda teve bola que voltou pro meio de campo, onde pode mudar realidades e fazer gols mais bonitos no futuro. Porque a ciência é assim, quanto mais gente participa, dialoga, mais gente é alcançada. O futebol brasileiro tem um ar de amador. O dirigente, que nunca deixou de ser torcedor, tende a fazer tipo para a imprensa, jogar pra torcida, dialogar com os cartolas, e aí, falta espaço pra ciência, falta investimento na pesquisa, falta comunicação com o especialista.

Sem ciência não tem remédio, não tem novas tecnologias, não tem preservação ambiental, não tem política pública eficiente, não tem educação de qualidade, e não tem muitas outras coisas fundamentais pro nosso dia a dia. Sem ciência nossa paixão nacional, o futebol, voltará aos problemas de antigamente, ou ficará parado no tempo. Sem ciência, será cada vez mais difícil para os times brasileiros alcançarem o topo do futebol mundial. Porque é isso que as potências europeias fazem, investem constantemente em ciência e tecnologia. Em suas universidades e centros de pesquisa. Eles abrem as portas dos seus centros de treinamento para os cientistas. E cada conquista no mundo do futebol, pode ser uma conquista pro nosso dia a dia.

A noite avançou e do outro lado da rua, no telão do outro bar, começou a passar o primeiro jogo da Recopa. Do lado de cá, as mentes fervilhavam. E é isso que a ciência faz, pergunta, mesmo sem respostas na hora.

Yolanda Assunção


Imagem de destaque: rawpixel.com 

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