Livros que se contam: desobjetificando os objetos das humanidades

O projeto Livro Vivo reposiciona os “objetos” de estudo da Psicologia, os indivíduos, num lugar não-passivo, em que eles é que decidem o que dizem e como dizem.

Cartaz de divulgação da atividade

Quem chegasse cedinho ao gramado do Centro de Atividades Didáticas 2 da UFMG na última segunda (06) veria banners pendurados pelas árvores com os dizeres “Livro Vivo” e não entenderia muita coisa, sem saber que dali a pouco se estabeleceria ali mesmo uma grande e inovadora experiência de leitura. Sob coordenação da professora Stella Goulart (Dpto. de Psicologia da UFMG) e do doutorando Leandro Fiúza, se instalou ali a biblioteca a céu aberto do Livro Vivo, projeto que promove um contato sem mediações com pessoas que vivem a estigmatização que acompanha um diagnóstico de sofrimento mental. Nessa biblioteca não há prateleiras ou volumes impressos, apenas pessoas: os Livros e leitores. Os livros, são indivíduos com sofrimento mental, que narram sua própria história ao vivo. Os leitores, estudantes de psicologia que escutam, atentamente o narrador autor ali, na sua frente. Já é a terceira vez que esse encontro acontece, sempre pelos bosques da universidade.

Os Livros Vivos, caminhantes e pensantes, se instalaram como de costume, sob as árvores, prontos para receberem seus leitores, que se sentavam na grama à sua volta. É a segunda vez em que os leitores foram exclusivamente alunos do curso de Psicologia da UFMG, tendo a biblioteca viva como parte das atividades da disciplina de Psicopatologia. É uma proposta inovadora para as humanidades, segundo Leandro Fiúza, e “uma nova experiência de contato com o sofrimento mental de forma ativa”. Fiúza lembra que um dos procedimentos padrão para as pesquisas em Humanidades e muito utilizado na formação dos graduandos em Psicologia é a entrevista, que neste caso costuma acontecer em ambientes manicomiais, em que os alunos visitam essas instituições.

O Livro Vivo desconstrói e reconstrói essa experiência desde o princípio, convidando essas pessoas com sofrimento mental a virem aos bosques do campus, saindo desses cenários de confinamento, e sem exigência alguma sobre suas falas. Quem quiser falar de seu diagnóstico e sua trajetória relacionada a ele tem total liberdade, mas também pode-se falar, entre tantas outras coisas que foram mesmo faladas, sobre seu papel na sociedade enquanto ufólogo e representante de Chico Xavier. Os estudantes, por sua vez, perdem o papel ativo que teriam ao direcionar uma entrevista e se tornam escutantes, leitores das histórias dos Livros Vivos.

Sobre as entrevistas de pessoas com psicopatologias dentro dos hospitais psiquiátricos, a professora Stella Goulart diz que ainda se realiza esse tipo de prática mas que também “existe uma crítica muito consistente com relação a isso – uma crítica ética e uma crítica técnica. […] Geralmente as pessoas quando fazem a entrevista nas aulas de psicopatologia, é uma entrevista super hierarquizada, né? É uma anamnese, com um um monte de perguntas prontas, é um jogo muito difícil, especialmente quando o outro tá sem liberdade de ir e vir” e que é dessas críticas que vem a metodologia da aplicação dessa biblioteca humana à disciplina. O formato a que chegaram, do livro livre em que a narrativa do autor se desenvolve de forma espontânea e imediata diante dos leitores-alunos, desenvolve empatia e celebra os encontros, o cara-a-cara, auxiliando os graduandos a entenderem aqueles indivíduos como mais do que seus objetos de estudo.

Tanto a professora quanto o doutorando disseram que as Humanidades de uma forma mais ampla se beneficiariam dessa abordagem que se contrapõe à entrevista guiada completamente pelo pesquisador e que se abre para a intervenção do outro. O Livro Vivo é uma experiência inovadora tanto do ponto de vista do ensino quanto de pesquisa – expor os estudantes a seus objetos de estudo de forma a desenvolver empatia e reconhecimento desde a graduação forma profissionais e pesquisadores mais aptos a lidar com a parte mais primordial dias ciências humanas: as pessoas. A professora é quem sintetiza muito bem toda essa nova proposta humana, didática e metodológica. “É essa ideia do outrar-se, sabe? Ter uma oportunidade de produzir empatia num encontro verdadeiro”.

A professora ainda lembra que é muito fácil para o graduando se perder em meio às metodologias aprendidas e utilizadas e esquecer que seu objeto é muito mais que um objeto. Humanizar a relação entre o pesquisador e as pessoas e comunidades que ele toca é fundamental.

Maria G. Lara

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