ALMG lança Frente em defesa da ciência

O lançamento aconteceu em meio a programação em defesa da Fapemig e foi sucedido por uma Reunião Extraordinária com mais de 20 nomes, entre parlamentares, sindicalistas e representantes de instituições e organizações.

Em ocasião do lançamento da Frente Parlamentar Pela Defesa da Ciência, Pesquisa e Tecnologia, foi realizada na última terça-feira (08) uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) que contou com a presença de representantes de instituições e organizações de todo o estado. O lançamento e a reunião extraordinária da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia aconteceram em meio a uma grande programação pela pesquisa mineira, composta pela Marcha Pela Ciência e uma mostra científica na Praça da Assembleia.

A criação da Frente foi uma proposição do Deputado Professor Cleiton, do partido Democracia Cristã e membro da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da ALMG, com o objetivo de pressionar o governo do estado a manter o financiamento da pesquisa científica de Minas Gerais. O deputado falou em especial da determinação constitucional de um repasse de 1% do orçamento do estado para a pesquisa, e da elaboração de uma PEC para reforçar essa obrigação do governo.

Momento da fala do deputado Professor Cleiton (DC)

Entre os cerca de 20 convidados que compunham a mesa junto à Comissão estavam representantes da Fapemig, UFMG, UFLA, Unimontes, UFSJ, APUBH, SBPC e Fiocruz. Em nome da Fapemig estava presente Evaldo Vilela, presidente da Fundação, que falou da importância do diálogo entre a comunidade científica e a ALMG, tanto para defender as condições de se fazer pesquisa quanto para que se tenha mais uma plataforma para se expor e explicar à sociedade o que se faz e qual a importância do que se faz nas Universidades. “Nós temos a necessidade de comunicar à sociedade o que nós fazemos. E o que nós fazemos na pesquisa científica é muito importante pra Minas Gerais, para o Brasil, para o mundo!”, disse o presidente da Fapemig. Ele prosseguiu destacando alguns dos grandes avanços e descobrimentos científicos feitos no estado recentemente, algo comum a outras falas dos presentes. A relevância das descobertas da pesquisa em Minas Gerais foram inclusive um dos motes da divulgação do lançamento da Frente no site da Assembleia:

Criação, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), de uma espuma capaz de detectar e absorver agrotóxicos de alimentos. Registro de patentes, também pela UFMG, de cimento nanoestruturado, muito mais resistente, e de uma nanoantena, para análise de micropartículas. Estudos para o aprimoramento da vacina contra a febre amarela, que estão sendo feitos pela Fiocruz Minas. Todas essas são recentes conquistas da pesquisa científica em Minas Gerais, que está sob ameaça em virtude do corte de verbas públicas.

Evaldo Vilela finalizou sua fala reafirmando que a motivação daquela mobilização não era “um choro por dinheiro”, mas uma tentativa de convencer o poder público da importância do desenvolvimento científico e tecnológico para o estado.

A reitora da Universidade Federal de Minas Gerais, Sandra Regina Goulart, disse que “não se constrói um país sem investimento sustentável e sustentado em educação, ciência e tecnologia”, patrimônios do nosso país que devem ser sempre defendidos e que são especialmente fundamentais no cenário de crise que enfrentamos hoje. A reitora ainda ecoou as discussões sobre a relevância das Humanidades, declarando que “as Universidades são um espaço crítico, espaço de pensamento crítico, e não se pode estudar medicina, engenharia sem se pensar num projeto de construção ética e cidadã”. Ela disse, ainda, que a responsabilidade da Frente é muito maior do que apenas defender as instituições e o fomento a elas, mas lutar pelo futuro do estado, que só pode ser construído com instituições de ensino fortes e críticas.

Valdir Mano, vice-reitor da Federal de São João del-Rei (UFSJ), usou sua fala para destacar a importância de se valorizar as universidades públicas especialmente em cidades pequenas, onde a economia costuma girar em torno dos câmpi. Em São João, uma cidade de 80000 habitantes, as cerca de 15000 pessoas entre estudantes, professores e técnicos compõe uma parcela imprescindível à cidade e, segundo o vice-reitor, os impactos dos cortes e bloqueios já se anunciam na região, que depende em grande medida da universidade.

Das falas, a mais destoante foi a do deputado Coronel Sandro (PSL), membro da comissão. Coronel Sandro defendeu e justificou os bloqueios do governo federal e os cortes do governo estadual como medidas necessárias de gestão orçamentária usando manchetes de jornais e revistas dos governos PT – provocando gritos de “Lula Livre” na audiência. A certa altura, com tímidas tentativas de puxar um grito de “se para a ciência não avança o Brasil”, o deputado disse que se não conseguisse falar seria “obrigado a dizer que o Lula ainda está preto, babaca”, causando vaias. A presidente da comissão, Beatriz Cerqueira, interviu antes que houvesse algum conflito mais agudo, lembrando da pluralidade da mesa e que quão excepcional foi reunir aquele número de pessoas dedicadas à educação na Assembleia. O deputado ainda se estendeu por mais algum tempo e, diante de protestos da audiência, disse que não fazia “questão nenhuma de representar vocês” e que representava os quase 60 milhões de eleitores de Jair Bolsonaro – apesar do deputado mesmo ter sido eleito com cerca de 50 mil votos.

A professora Stella Goulart, presidente da Apubh, falou da importância das pesquisas como manutenção do patrimônio intelectual do país e do estado. Segundo ela, as pesquisas são “uma sustentação do patrimônio social, científico e artístico do Brasil. Somos (as comunidades científicas) aqueles que preservam o legado e garantes o futuro, pois estamos numa situação de ataques institucionais [a esse patrimônio]. Aqueles que deveriam nos proteger são os mesmos que nos atacam de forma irrefletida”, ela diz, se referindo aos governos federal e estadual. A professora ainda comparou a situação a que a pesquisa científica vem sendo submetida a A Casa, de Vinícius de Moraes. A pesquisa vem perdendo seu chão, seu teto, suas paredes. E como trabalhar nessa casa muito engraçada?, ela pergunta, porque “nós seguimos trabalhando!”

A sessão foi concluída com falas de todos os presentes, num total de mais de três horas de exposição e debate. A importância social e econômica do conhecimento científico foi tema recorrente das falas que se seguiram, além do reconhecimento da importância da composição da mesa de lançamento da Frente. A pauta e a lista completa de convidados pode ser acessada no site da Assembleia e a transmissão da reunião você pode assistir abaixo.

 

Maria G. Lara

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