FAPEMIG: Os cortes além dos números

Os dados todos são mensuráveis, mas é preciso falar dos impactos menos estatísticos do corte de bolsas: seus efeitos na vida dos bolsistas e dos brasileiros de uma forma geral.

Nas últimas semanas, as instituições ligadas à pesquisa científica em Minas Gerais sofreram um grande impacto. Na sequência de desmontes que têm atingido o Brasil, uma das afetadas da vez é a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais, a Fapemig. Os cortes orçamentários anunciados pela Fundação em 22 de fevereiro trazem efeitos gigantes. A UFMG, sozinha, perdeu mais de R$ 15 milhões, sendo R$ 2,5 milhões para o pagamento de bolsas de iniciação científica. Na UFLA, quase 400 bolsas foram suspensas; UFJF e Unifei perderam quase 200 bolsas de IC cada uma. As bolsas de pós-graduação (por hora) estão mantidas, mas foi suspensa a concessão de novas bolsas também nesta modalidade.

Os cortes não surpreendem quem acompanha o financiamento da Fapemig, já que desde 2015 a Fundação não recebe o repasse do Estado integralmente. E, se os repasses já vinham diminuindo a cada ano, agora a Fapemig tem mais um problema: a determinação legal de que a Fundação repasse 40% da verba destinada a ela seja transferido para projetos da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

Esses números todos são mensuráveis, checáveis, ótimos para causar impacto com suas grandezas, mas é preciso falar dos impactos menos estatísticos do corte de bolsas: seus efeitos na vida dos bolsistas e dos brasileiros de uma forma geral.

Em qualquer conversa com estudantes afetados por essa suspensão de recursos é possível ouvir sobre como as bolsas de IC são, antes de tudo, uma renda para manutenção do estudante na universidade. Para muitos é a única renda que possuem, como lembra Marina Paiva, estudantes de Letras da UFMG que possuía uma bolsa para estudar Linguística Cognitiva, Interacional e Cultural:

“Meus horários ficaram comprometidos com a IC e, como eu era bolsista, não poderia ter emprego. Ou seja, a possibilidade de cortes afeta muito a nós estudantes já que, você não pode ter um emprego se quiser possuir a bolsa e não sabe quando o corte pode acontecer. É bastante complicado para muitos alunos se manter na graduação, quando surge a oportunidade de uma bolsa que condiz com os horários de um graduando é uma coisa bastante positiva. Infelizmente quando esses cortes ocorrem fica mais difícil a permanência do estudante no ambiente acadêmico.”

Outros estudantes destacam também o impacto negativo que esses cortes têm sobre as possibilidades de aprendizado oferecidas. É o caso de Edmara Assunção, estudante de Relações Econômicas Internacionais que perdeu sua bolsa de pesquisa em Economia Industrial às vésperas da renovação:

“Eu dependia da remuneração da bolsa pra viver aqui em BH, agora estou procurando outros meios. Mas o grande impacto mesmo, que eu tenho consciência, é no aprendizado dos bolsistas de IC nessa extensão da faculdade, aprendendo, como no meu caso, a elaborar análise de dados e a escrever artigos, e num grande plano, na pesquisa científica em Minas Gerais.”

A iniciação científica é uma espécie de primeiro passo para a carreira acadêmica. Muitas vezes é um primeiro contato com o fazer da pesquisa científica – pode-se dizer que a IC é quase uma espécie de recrutamento de jovens mentes interessadas em fazer pesquisa, o que pode crescer até a formação do estudante como, ele mesmo, um pesquisador. Isso não é pouca coisa, a relevância dessas bolsas para manter a pesquisa científica brasileira funcionando é alta, como lembra Eric Xavier, mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre:

“Ainda não estamos no caos, temos muitas pesquisas acontecendo mas a tendência é reduzir com a redução do número de bolsas de ICs e de pós graduandos – setores que realmente movimentam a pesquisa nas universidades brasileiras. Muita gente ainda faz pesquisa “na tora”, como no meu caso em que eu recebia bolsa mas não tive financiamento algum para minha pesquisa (ajuda de custo com campo e com material), mas isso vai reduzir com menos bolsas e a tendência é um grande empobrecimento, em número e qualidade, da pesquisa universitária no Brasil.”

Eric teve problemas com sua bolsa a partir de 2017, seu segundo ano de mestrado, e lembra que, enquanto bolsista de tempo integral, não poderia arrumar emprego. Os problemas financeiros se agravavam mês a mês com os atrasos no pagamento da bolsa e isso afetava diretamente seu papel de pesquisador. “Isso me desanimou muito no meio do mestrado me deixando sem vontade de pesquisar, ainda mais com a percepção de que as coisas tendiam a somente piorar. Vi pessoas em estado pior que o meu, pessoas que amavam a academia sendo desacreditadas e começando a querer novos rumos porque não acreditavam na carreira acadêmica mais” relata o pesquisador.

Quando falamos do desmonte das instituições de ensino num nível macro, com dados e relatórios, falamos de quanto dinheiro foi perdido aqui e ali numa facilidade absurda. Mas é num nível individual que esse desmonte se transforma em desistência e descrença, motivadas por outro fator muito individual: a necessidade de se manter. É impossível desvencilhar esses dois aspectos do desmonte: as decisões de políticas e financiamento influenciam nas condições de vida de bolsistas e pesquisadores, os levando a se afastar da pesquisa e, assim, tornando ainda mais drástica a redução de projetos.

Ainda assim, mesmo com todos os impactos num nível pessoal, todos entrevistados fizeram questão de reiterar o valor da pesquisa científica para o Brasil, alguns inclusive insistindo e permanecendo nos projetos como voluntários. Marina é uma delase fala do impacto da ciência nas mais diversas áreas do desenvolvimento. “A situação da pesquisa no Brasil tende e a piorar, não apenas isso, pois a ciência no país é responsável pelo desenvolvimento em diversas áreas. Com essa política de desvalorização, o país corre o risco de ter o desenvolvimento retardado, afetando não só os profissionais da pesquisa, mas também a população em diversos setores”. A fala é ecoada por Edmara que questiona se um país sem ciência pode se desenvolver apenas fabricando armas.

O país tem muito a perder com a restrição de verbas e a consequente diminuição do número de pesquisadores. Para Eric, “perdemos gênios, como a pesquisadora e seus alunos que descobriram algo de tamanha grandeza como uma organela celular [referindo-se à pesquisa conjunta entre UFMG e Yale em 2003]. Perdemos projetos sociais que realmente ajudam o povo, como vários projetos de extensão. Perdemos parcerias internacionais já que nossa pesquisa tende a cair de qualidade. Perdemos futuros pesquisadores, que hoje são pessoas que pensavam em seguir carreira acadêmica mas viram que a situação só está ficando pior. Perdemos a oportunidade de descobrir mais sobre nosso país (biodiversidade, história, geografia física e política, análises sociais…). Perdemos o crédito que as universidades tinham frente ao público e com isso a vontade de um brasileiro querer entrar em uma universidade pública. Perdemos inovações tecnológicas, que levam a perda de dinheiro. Ou seja, o processo de cortes, mesmo se fosse realmente para ‘enxugar a máquina pública’, é um processo burro quando se corta em pesquisa, ainda mais de alto nível como é realizado nas universidades brasileiras”.

Por fim, a descrença que a política brasileira volte a se preocupar com desenvolvimento e pesquisa científica num futuro próximo nos leva a recorrer à população, como declara Pedro Ivo, estudante de Psicologia, com IC em Neurociência e Análise do Comportamento:

“[O desmonte] é um reflexo da cultura política que se criou de não valorizar adequadamente a Ciência. A pesquisa científica no Brasil, infelizmente, sempre balança. Caberá a um amadurecimento da população, a uma cobrança sistemática, e a figuras públicas que mostrem força política nesse quesito para que o cenário, de fato, mude.”

A ciência brasileira está sendo atacada continuamente desde a Emenda Constitucional 95 e Bolsonaro não promete reverter a situação, pelo contrário. Agora, a ciência de Minas Gerais é balançada pela base, pelos bolsistas que compõem grande parte dos grupos de pesquisa nas instituições e que são apoio fundamental para os pesquisadores. Com os bolsistas afetados em nível de subsistência e eventualmente abandonando as pesquisas, o que nos resta? Talvez seja bom, além dos números e cifrões dos cortes, pensarmos e falarmos um pouco mais dos impactos sensíveis que esses números têm – na vida de quem depende das bolsas e na de quem depende do desenvolvimento do país.

Maria G. Lara

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