Os valores da ciência na história do Brasil

Conheça um pouco sobre a tese de doutorado da professora Marina Assis Fonseca. A pesquisa faz um passeio histórico sobre os valores pregados e praticados pela ciência no Brasil

Você já parou pra pensar em como a ciência influencia nas escolhas da sua vida? Alguma vez já usou um argumento científico em uma discussão? Já pensou em por quê argumentos científicos tem mais valor? A pesquisadora Marina Assis Fonseca, formada em ciências biológicas, doutora em história da ciência pela UFMG e mãe do Elias, se questionou sobre isso e decidiu investigar. A iniciativa da pesquisa partiu do interesse de Marina em entender o que os professores intencionavam em relação aos seus estudantes e o que de fato eles queriam que os estudantes desenvolvessem. “Na ação docente, diante de pessoas sempre existe uma intencionalidade, e nessa investigação eu percebi uma distância entre o universo em que eu havia formado, a ideia de ciência que me havia sido apresentada como estudante(…) então eu percebi e estranhei o discurso de neutralidade da ciência pela primeira vez”. Ela que já era professora, viu assim surgir a sua questão de doutorado: Para além de conceitos e tecnologias e materialidades, que valores que a ciência promove na sociedade? Desta pergunta veio a sua tese “Constituição de valores de ‘ciência e cultura’ no Brasil (1948-1988)”, um material riquíssimo que tem como referência a atuação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Em sua tese, Marina fala sobre o papel social da ciência neste período, como um formador de opinião, autonomia e liberdade. “Ela (a ciência) é um tipo de pensamento que coloca a gente pra pensar sobre evidências e não aceitar passivamente algo que alguém coloca pra gente, então eu penso que a ciência é um contraponto a outros tipos de pensamentos que às vezes existem”. Para além disso, também destaca a ciência como gerador de pensamento crítico e de discurso de autoridade, dependendo de como ela é apresentada, dando legitimidade a uma causa.

A ciência também é cerceada por valores, tais como a autonomia e a liberdade de expressão. Marina identificou em sua tese três períodos de atenção na história da SBPC e como foram as mudanças de pensamento e conceitos dentro e fora da instituição.

“Você vai desde um discurso de imparcialidade, que foi antes do Golpe Militar de 1964, e que a ciência estava buscando se defender das críticas do pós-guerra. No sentido de dizer ‘só vamos produzir, mas a utilização depende de outras esferas e não nos diz respeito’. Depois de 1964, com as liberdades de debate sendo cerceadas em outros espaços, a SBPC assumiu os valores de autonomia e liberdade. Liberdade de expressão mesmo. Incorporou muito o campo das ciências humanas, já que originalmente a SBPC era mais das ciências naturais e hoje isso já é bem ampliado. Foi muito no período da ditadura que isso aconteceu. Sob o discurso da neutralidade e porque o governo militar também tinha um interesse de associar sua imagem à ciência, a SBPC não foi cerceada e foi crescendo como movimento social, até chegar o ponto de também começar a sofrer censuras. Aí tem uma virada para um valor de democracia e engajamento político. A SBPC assume publicamente que tinha uma posição política pró democracia e passa a valorizar mais o papel da divulgação científica e do cientista como aquele que vai conversar com a sociedade, que vai justificar o que ta fazendo, que tem que se inserir para buscar recursos e etc.”

O trabalho da professora Marina destaca o quão importante é que divulgadores científicos pensem em como a divulgação científica está sendo feita e como estamos falando sobre a ciência. A ciência não é neutra em relação aos valores.

Confira a entrevista completa:

Por Thacyane Martinelli


Imagem de destaque: @rohanmakhecha

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