As CHSSA diante da crise no sistema de Ciência e Tecnologia

A Reunião Anual da SBPC de 2018 contou com diversas mesas que abordaram a situação da Ciência e Tecnologia no Brasil. Algumas delas discutiram especificamente a situação das ciências humanas, sociais e sociais aplicadas (CHSSA) neste contexto. Foi o caso da mesa organizada pela Associação Brasileira de Estudos Sociais das Ciências e das Tecnologias (ESOCITE.BR), que reuniu pesquisadores das CHSSA para discutir os reflexos das atuais políticas de C&T nessas áreas.

A mesa, realizada no dia 26 de julho, contou com a coordenação da professora da UNB, Fernanda Sobral. Como palestrantes estavam o professor da UFMG e coordenador do Fórum de Ciências Humanas, Sociais e Sociais (FCHSSA) e do Programa Pensar a Educação Pensar o Brasil (PEPB), Luciano Mendes de Faria Filho e a professora da UFV, Daniela Alves de Alves. Um ponto comum apontado pelos participantes da mesa foi o agravamento da crise no sistema de C&T.

Para iniciar a discussão, Fernanda Sobral apresentou o atual quadro “trágico” da ciência e tecnologia no Brasil. De acordo com a professora, os cortes que já vinham ocorrendo nos últimos anos piorou muito com as medidas de contingenciamento adotadas pelo governo atual, sob o risco de termos um agravamento do quadro diante na Emenda Constitucional 95.

Dando seguimento à mesa, o professor Luciano Mendes também contextualizou o atual cenário político brasileiro, localizando as CHSSA no que ele considera ser uma crise institucional. Para o pesquisador, tal crise causou alguns efeitos colaterais nas CHSSA, como pode ser observado pós manifestações de 2013, nas quais pesquisadores da área foram convocados a realizar diversas análises da conjuntura diante da urgente necessidade de entendimento do momento político, o que rendeu editais específicos de pesquisa. Além disso, as CHSSA acabaram por se aproximar das demais áreas do sistema de C&T, que se reflete na crescente participação em mesas conjuntas entre as áreas em eventos como a SBPC, por exemplo.

Porém, embora a grande área tenha se fortalecido em termos de organização institucional, o que pode ser visto a partir da criação do FCHSSA, as políticas orçamentárias continuaram, e continuam, a desprestigiar as pesquisas realizadas nestas áreas, além da não participação em programas como o Ciência sem Fronteiras. Diante desse quadro, de acordo com Faria Filho, vivemos uma perda de horizonte de expectativas nas ciências humanas e sociais. Um outro aspecto importante levantado pelo professor é o modo de gestão de C&T ancorado no mundo empresarial e no lucro, que traz a inovação, voltada para o campo tecnológico e de mercado, para o centro da discussão sobre o desenvolvimento de pesquisas. Por isso é necessário localizar as CHSSA no cenário de inovação a partir da criação de políticas públicas que são elaboradas e realizadas diante das pesquisas dessa grande área.

Outro ponto levantado pelo pesquisador é a avaliação da pós-graduação, que desconsidera as especificidades das CHSSA e, com isso, prejudica em muito os resultados alcançados. Esse fator tem, inclusive, mobilizado pesquisadores da grande área para a discussão da revisão do sistema de avaliação tal como ele está atualmente e, por que não, uma revisão da própria Capes. Tal questão se desdobra no financiamento da área, que, observando as políticas da Capes, é muito distinto das outras áreas. O pesquisador propõe assim uma ampla (re)discussão sobre o sub-financiamento das CHSSA.

Foto: Priscilla Bahiense

A professora Daniela Alves de Alves, por sua vez, organizou sua fala levando em conta as especificidades das Ciências Sociais, sua área de formação e na qual localiza-se sua experiência de pesquisa. Para a professora da UFV, um dos grandes problemas hoje é a falta de clareza sobre o que é o fazer científico. Mais especificamente, o que é o fazer cientifico nas áreas das humanidades. Ainda de acordo com a professora, a falta de conhecimento da sociedade encoraja o ataque às ciências sociais por parte da mídia, que busca tirar o crédito das pesquisas realizadas na área. O que, consequentemente, contribui para uma baixa valorização social deste tipo de ciência.

Também levando em conta a questão do financiamento, a pesquisadora considera que a falta de investimento na área seja um complicador, até mesmo para o entendimento das pesquisas como agente de inovação. Alves recorda os recentes cortes nos programas de permanência no ensino superior, enfraquecendo assim as políticas de ações afirmativas. Tal fato diminui a possibilidade de permanência no ensino superior das camadas menos favorecidas, o que só é possível com investimento financeiro específico para esse fim.

Foi também lembrado pela professora o fato das ciências sociais terem sido renegadas pela atual versão da BNCC, que além de não ter tido a participação de pesquisadores e sociedade durante sua formulação, ainda leva em conta as demandas de grupos conservadores como o Escola sem Partido. Além de estarem presentes da formulação das reformas aprovadas e em tramitação no Congresso Nacional e demais estruturas de governo, a professora chamou atenção para a presença desses grupos nas universidades, entre os próprios docentes, o que tem gerado constantes ataques ao pensamento intelectual.

Para encerar, a professora destacou que a defesa da autonomia ao fazer científico não deve ser feita apenas para o fazer acadêmico e que programas como PIBID, que é uma das pontes entre este e a sociedade brasileira. Deve ser mais valorizado e objeto de disputa também por quem não está nas universidades.

 

Priscilla Bahiense

27 de julho, Maceió – AL

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