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“Popularizar a ciência é essencial numa era em que todo mundo é expert”

Como um cientista pode se comportar na esfera pública para tentar combater as “trevas” de que tantos reclamam em redes sociais e afins? Uma saída é mirar-se no exemplo de outros que, ao longo de suas vidas, dedicaram ao menos parte do tempo para popularizar o trabalho científico e esclarecer o público não iniciado.

Um dos maiores expoentes da popularização da ciência em nossos tempos, Stephen Hawking, morreu no dia 14 de março. Sua morte casou uma onda de comoção mundial, em muito causada pela inspiração que Hawking e suas obras – como Uma Breve História do Tempo ou O Universo Numa Casca de Noz – trouxeram para milhões de pessoas ao trazerem para uma linguagem mais simples conceitos extremamente complexos.

Para o brasileiro Marcelo Gleiser, físico, professor e diretor de instituto na Universidade Dartmouth, nos Estados Unidos, e ele próprio um divulgador da ciência com livros e palestras, a popularização da ciência é crucial para estes tempos em que “todo mundo é expert” em tudo. “A ideia de que um cientista não pode ser, também, um intelectual público é extremamente antiquada.”

Gleiser também tem uma visão menos pessimista sobre movimentos que ganharam força recentemente na internet, como os crentes da “Terra plana” e outras excentricidades do gênero. “Sempre existiram, só que não tínhamos tanto conhecimento deles antes da internet.” O caminho para equilibrar o jogo, insiste, é manter viva a ideia do cientista como um incentivador do contato do grande público com os avanços do conhecimento.

Ainda sobre misticismo, quando Hawking morreu, milhares de usuários de redes sociais prestaram sua homenagem ao físico lembrando o fato de que ele se foi em 14 de março, data de nascimento de Albert Einstein. Ou, ainda, que seu nascimento ocorreu exatamente 300 anos após a morte de Galileu Galilei. “Tenho certeza que Hawking adoraria esse vínculo com dois dos maiores cientistas da história. Quem não gostaria? Por outro lado, imagino que atribuiria isso tudo a meras coincidências, com nenhum significado mais profundo”, avalia Gleiser.

Leia a íntegra da entrevista:

CartaCapital: Na sua opinião, quais foram as maiores contribuições de Stephen Hawking para a Física e para a ciência como um todo?
Marcelo Gleiser: Hawking fez suas contribuições mais importantes em duas áreas relacionadas: a física dos buracos negros e a origem do universo. No caso dos buracos negros, foi ele o primeiro a propor que os buracos negros podem “evaporar”, isto é, perder gradualmente sua massa através da criação de partículas na sua vizinhança.

Este resultado abriu as portas para a tentativa de juntar a física quântica com a física gravitacional, um dos desafios ainda abertos da física moderna. No caso da origem do universo, Hawking propôs, juntamente com James Hartle da Universidade da Califórnia, um modelo em que o universo surge de um processo espontâneo, quântico, sem a ação de uma causa inicial. Com isso, tentou eliminar a questão religiosa da origem cósmica, algo que não me parece que a ciência pode fazer.

CC: Hawking lançou seu “Uma Breve História do Tempo” em 1988, ano em que a Nasa retomava seu programa de ônibus espaciais, e morreu 30 anos depois, quando espalham-se na internet coisas como o “movimento da Terra plana”. As coisas pioraram?
MG: Espero que não. As pessoas que seguem coisas como Terra plana e criacionismo sempre existiram, só que não tínhamos tanto conhecimento deles antes da internet. Mas existe, sim, o problema de como filtrar boa informação de má informação nas redes. Esse é um desafio da educação moderna. Acho que o Hawking, e outros cientistas que, como eu, dedicam parte de seu tempo à divulgação fazem isso na expectativa de melhorar essa situação, inspirando pessoas a se relacionar com as descobertas da ciência.

CC: Hawking foi uma figura extremamente popular entre o público não especializado. Como essa imagem era vista pela comunidade científica na área da Física? Essa popularidade era algo benéfico para a área ou trazia problemas?
MG: Nunca trouxe problemas, ao menos nas últimas três décadas. A ideia de que um cientista não pode ser, também, um intelectual público é extremamente antiquada. Na verdade, muitos dos grandes cientistas da história foram intelectuais públicos, incluindo Galileu, Einstein, Feynman dentre muitos outros. A comunidade científica, hoje, vê, essa atividade como essencial, dados os desafios encontrados pela credibilidade na ciência numa era em que “todo mundo” é expert em tudo.

CC: Em 2010, o sr. publicou na Folha de S.Paulo um texto crítico ao livro O Grandioso Design, afirmando ser lamentável que um físico como Hawking se prestasse a divulgar teorias especulativas como quase concluídas. Até onde a tentativa de popularizar alguns temas científicos pode levar a esse tipo de problema?
MG: Isso realmente é um problema, e, infelizmente, nessa área Hawking cometeu alguns erros sérios – como, por exemplo, afirmar, com convicção, que a ciência resolveu a questão da criação do universo. Estamos longe disso, o que temos são modelos incompletos, simplificados e não testados que moram ainda no mundo das hipóteses.

E, mesmo se testados, não respondem a todas as perguntas, como explico em alguns de meus livros como A Ilha do ConhecimentoA Dança do Universo e A Simples Beleza do Inesperado. Popularizar a ciência não significa que ela deva ser apresentada com sendo capaz de responder a todas as perguntas. Isso é querer transformar a ciência em religião, algo de muito perigoso.

CC: Numa entrevista recente, Hawking afirmou temer o desenvolvimento da Inteligência Artificial. Não é um contrassenso para quem defendia, paralelamente, que a única escapatória para a humanidade seria expandir seus horizontes e, futuramente, até deixar o planeta Terra?
MG: São questões diferentes. A inteligência artificial pode, em princípio, ameaçar nossa existência como espécie – por exemplo, se máquinas tornarem-se mais inteligentes do que nós, como garantir que não nos eliminarão? Esse é o medo de Hawking, e de vários outros. Deixar o planeta Terra pode ser algo que usará inteligência artificial mas é uma expansão da nossa existência e não ameaça de sua eliminação. Essa é a distinção que Hawking fez.

CC: Após a notícia da morte, mensagens se espalharam em redes sociais lembrando que Hawking morreu na mesma data em que nasceu Albert Einstein. Outros lembraram que ele nasceu “300 anos depois da morte de Galileu”.  Como o sr. Imagina que ele próprio reagiria a esse tipo de “homenagem” baseada em coincidências de datas?
MG: E lembre que ele e Einstein morreram aos 76! Tenho certeza que Hawking adoraria esse vínculo com dois dos maiores cientistas da história; quem não gostaria? Por outro lado, imagino que atribuiria isso tudo a meras coincidências, com nenhum significado mais profundo.

 

Fonte: Carta Capital

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