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A epidemia (de diagnósticos) de transtornos mentais

No último dia 21, a professora doutora Maria Aparecida Affonso Moyses apresentou a conferência “A epidemia de transtornos mentais” durante a 69ª Reunião Anual da SBPC. A professora, que leciona Pediatria na Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, é militante do movimento DESPATOLOGIZA, que questiona a medicalização da vida, e foi essa a abordagem da conferência.

Segundo a professora, o número de diagnósticos e de categorias psicopatológicas vem aumentando exponencialmente desde os anos 90. Como exemplo, ela citou o transtorno bipolar cujo número de diagnósticos aumentou 40%. “Aqui acho que precisamos fazer uns parênteses: o transtorno bipolar é o sucessor da PMD, ou psicose maníaco-depressiva. Houve essa mudança na transgressão do século. Até os anos 90, havia esse conhecimento inquestionável em pediatria e psiquiatria infantil de que crianças não tinham quadros de PMD e que, em adolescentes, era uma situação bastante rara. […] Hoje, o índice de diagnósticos é de quase 10% entre crianças e adolescentes. Então, a PMD foi transformada em transtorno bipolar e aí eu acho que tem alguns fatores que ajudam a gente a entender. O primeiro é a mudança de critérios de diagnóstico, que se tornaram muito mais frouxos e é muito difícil qualquer um de nós não se encaixar nos critérios” declarou a pesquisadora que também abordou a problemática “glamourização” de transtornos mentais. “Além disso tem um outro fator, e eu não estou desqualificando as pessoas que têm esse diagnóstico, mas é o seguinte:vocês já ouviram alguém dizer ‘eu sou PMD’ ou ‘eu sou psicótico’? E ‘eu sou bipolar’? Tem um certo glamour, né?”.

Aliado aos altos índices de diagnósticos está o elevado número das vendas e distribuição de medicamentos para tratar psicopatologias. Para a professora Maria Moyses isso “acaba com o conceito de normalidade estatística”, que é vital para a medicina. Assim, segundo ela, é impossível estabelecer políticas públicas para algo que acomete, por exemplo, 40% da população estadunidense.

Por isso, a professora Maria Moyses disse que um título mais apropriado para a exposição talvez fosse “A epidemia de diagnósticos de transtornos mentais”. Além da alteração de normas de diagnósticos, como a citada acima sobre a PMD, também vivemos a criação de novas enfermidades. Ela cita o livro Selling Sickness, de Alan Cassels e Ray Moynihan, no qual os autores expõem como as grandes indústrias farmacêuticas incentivam e financiam os diagnósticos “facilitados” e a criação de doenças. Parte do conteúdo do livro é composto por atas de reuniões do alto escalão dessas indústrias, divulgados por pessoas que a professora chamou de “infiltrados”. Muitas das atas e declarações que constam no livro são justamente sobre a criação de enfermidades e dos medicamentos para “tratá-las”. A professora ainda falou do papel das equipes de marketing – que são parte relevante da indústria farmacêutica – e seu trabalho ao divulgar doenças e convencer as pessoas de que elas sofrem daquilo e precisam de determinada droga, vendida por eles com algum nome atrativo e simples o bastante para você não esquecê-lo.

Sobre essa criação de psicopatologias, a professora apresentou os números do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM, desde sua primeira formulação até à última. É de se imaginar que avanços na Medicina trouxessem o reconhecimento de novas enfermidades, mas os aumentos são alarmantes: em sua primeira edição, de 1952, o manual trazia 106 categorias de psicopatologias; a segunda edição, de 1968, já tinha 182; foram saltos gradativos até chegar à última edição, publicada em 2013, que tem mais de 300 transtornos listados. Outra grande crítica da professora ao DSM é como ele tem sido usado por estudantes: muitos só aprendem psicopatologia no manual, ignorando o estudo das enfermidades para além do livro.

Como professora e médica, Maria Moyses pergunta: “quando uma criança pode sonhar, viver no ‘mundo da lua’, e lembrando que quem está no mundo da lua está prestando muita atenção por lá? Quanto um jovem pode fumar sem risco de ser um novo bicho-de-sete-cabeças? Nós estamos voltando com as chamadas ‘comunidades terapêuticas’, […] que de comunidades e terapêuticas não têm nada. Agora, eu não sei se vocês conhecem esse transtorno, que saiu no DSM-V: Transtorno Disruptivo de Descontrole de Humor. Sabem o que é? É quando a criança faz muita birra”. Sobre esse transtorno, cuja definição causou risos na plateia do auditório, a professora continuou: “Uma criança de dois, três anos, ela sai do consultório com esse diagnóstico e ela é tratada com antipsicóticos. O que estamos fazendo com a nossa infância?”

Professora Maria Aparecisa Affonso Moyses discute o numero elevado de diagnósticos de transtornos mentais. Foto: Maria G. Lara

A conferência foi um convite à reflexão sobre o nosso desespero em dar nome a qualquer coisa que nos pareça minimamente errada. Crianças medicadas com antipsicóticos por fazer birra e com estimulantes por não gostarem de estudar se apresentam como mais um sintoma de uma sociedade hipocondríaca que busca diagnósticos para traços humanos. A medicalização da vida é um problema que muito gera resistência à discussão, já que muitas pessoas sentem-se aliviadas ao ouvir que seu ‘frio na barriga’ para falar em público trata-se de uma ansiedade social, que pode ser medicada e controlada. Pessoas se prendem emocionalmente a placebos que, ao mesmo tempo que não curam doença alguma, têm inúmeros riscos à saúde e à vida do usuário – arritmia, hipertensão e tendência ao suicídio são possíveis efeitos colaterais listados em grande parte das bulas de drogas para tratamento de psicopatologias. E é nisso que indústrias têm se pautado para crescer mais e mais, vender cada vez mais remédios dos quais não precisamos mas dos quais nos tornamos dependentes.

Ao fim da conferência, a professora fala sobre a luta pela despatologização. “Temos coisas que fazer sim, do mesmo modo como gritamos ‘diretas já’ devemos atuar nesse campo também. São todos mesmos dispositivos do mesmo processo. Mas e aí, como a gente despatologiza, como a gente pensa em construir vida menos patologizada e que os processos da vida não sejam transformados em doença? Eu acho que temos que pensar em construir solos ético-políticos, e é por isso que eu falei que são os mesmos dispositivos, é o mesmo processo que barra e silencia questionamentos. E pensar que são as crianças e os jovens que recebem metilfenidato [estimulante contido na Ritalina] e risperidona [antipsicótico forte], são os que sonham com mundos diferentes, os que questionam o mundo atual. Se a gente vai pra um mundo zombie-like em que os questionadores e os sonhadores são calados, é como diz o psicanalista uruguaio Victor Guerra, estamos fazendo genocídio duplo: estamos impedido futuros diferentes.”

Maria G. Lara

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