Foto: Ligia Matne

Mulheres na ciência

Um dos temas discutidos na 69ª Reunião da SBPC foi a equidade de gênero na ciência, principalmente na mesa-redonda “Mulheres e Sociedade”. Mas porque estudar e discutir gênero e ciência? Porque isso é relevante?

Primeiro porque é uma questão de direito. As mulheres são parte da sociedade e tem direito a ter uma igualdade de participação no sistema de ciência e tecnologia de seus países. Segundo porque o país perde. No Brasil, por exemplo, as mulheres representam cerca de 51,6% da população, ou seja, a exclusão das mulheres da ciência implica na perda de metade da capacidade produtiva e de desenvolvimento da ciência no país.

Terceiro por questões sociais. As mulheres desenvolvem papéis e atividades diferenciados dos homens de maneira geral e é importante que se tenha uma perspectiva dos dois sexos. Alice Rangel de Paiva Abreu (UFRJ), presente na mesa “Mulheres e Sociedade” afirma que a “ciência com mais mulheres é uma ciência melhor. Os cientistas arregalam um pouco os olhos quando eu digo isso, evidentemente não é porque as mulheres são intrinsecamente melhores pesquisadoras que os homens, mas a questão da diversidade e da pluralidade é uma questão que influencia também a ciência. Você ter mais cabeças pensando de forma diferente traz de fato resultados melhores.”

A professora Marcia Cristina Bernardes Barbosa (UFRGS), também presente na mesa, apontou alguns mitos sobre a escassez das mulheres na ciência que dificultam a discussão e causam essa barreira da entrada e a dificuldade de permanência. Primeiro ela fala em estereótipos. O estereótipo do cientista é aquele do louco, cabelos em pé, de jaleco, óculos enormes… e homem. É assim representado por filmes, novelas, séries, livros, propagandas, etc, e nós assim internalizamos. E quando, raras vezes, é uma cientista mulher, é aquela figura solitária, descuidada, masculinizada. Ela aponta também a pré definição de papéis dos sexos imposta pela sociedade: os homens são inteligentes, chefes, proprietários; as mulheres são agradáveis, benevolentes, mediadoras de conflito. “Nós estamos condenando as nossas crianças para que os meninos sejam inteligentes e as meninas sejam simpáticas. Teremos meninos inteligentes antipáticos e meninas simpáticas burras”, afirma a professora.

Outro mito é o de que a mulher não quer ir para a ciência. A professora Marcia contou a história de Hipátiade Alexandria, uma das primeiras pessoas a dizer que as órbitas eram elípticas (o que causava uma quebra religiosa fundamental). O governo quis obrigá-la a abandonar suas pesquisas e negar suas descobertas e ela foi morta por não negar o que ela acreditava, por não negar seu direito de fazer ciência, e esse é apenas um dos muitos exemplos de mulheres que enfrentaram governos e morreram pelo mesmo motivo. A professora ilustrou com esse exemplo, o fato de não ser as mulheres que não querem ir para a ciência, é a ciência que nega a presença da mulher. Quando ela tenta entrar, é barrada, sua permanência é dificultada e sua autoridade é negada. E isso vem acontecendo há muito tempo.

E assim, com a junção de diversos fatores, a ausência das mulheres na ciência é perpetuada. É um “ciclo vicioso”, elas não conseguem acesso, os colegas homens ocupam cargos superiores na hierarquia veem que não há muitas mulheres e por consequência não escolhem bolsistas mulheres, as mulheres que ainda não entraram também não querem seguir esse caminho pois não há modelos de sucesso conhecidos. Esse preconceito é perpetuado pelo sistema e, segundo a professora Marcia, “a única maneira de destrancar o que você aprendeu do sistema é ação afirmativa, é contar pra eles: você vai ter também que escolher mulher”.

A pesquisadora Alice Rangel cita Londa Schiebinger, professora de Stanford que dirige um projeto junto com a UE chamado “Gender Inovations”. Schiebinger fala que para se entender a evolução dos estudos de gêneros é preciso ver que se começou pensando em fazer três coisas: consertar os números, consertar as instituições e consertar o conhecimento em si.

Para consertar os números, é preciso que existam pesquisas, indicadores científicos agregados ao sexo. Esta falta de dados resulta na manutenção dos preconceitos sobre a presença da mulher na ciência, tendo em vista que não se tem provas para refutá-los. Isso tem mudado com pesquisas sob a lente de gênero, principalmente na UE, que nos dá uma visão muito clara do que realmente acontece.

O Brasil está em nível excepcional porque é um dos três países onde as mulheres são maioria entre titulados com doutorado. Também são maioria na graduação, tanto em ingresso quanto em permanência. Mas apesar disso há alguns pontos ao longo da carreira cientifica onde a queda no numero de mulheres é relevante: da graduação para o mestrado, depois para o doutorado, e depois na progressão da carreira. A professora Alice Rangel afirma que “quando se olha a hierarquia do sistema, a gente percebe que apesar de um grande número de mulheres na base, à medida em que a hierarquia sobe, elas desaparecem. E isso é muito bem caracterizado quando se vê as bolsas do país”. Pelos dados do CNPq, as mulheres são maioria nas bolsas de amplo aspecto (iniciação cientifica, mestrado e doutorado). Mas quando se olha para as bolsas de pesquisa isso muda. “Eu tenho algumas hipóteses sobre isso. Porque todas as outras bolsas da CAPES e CNPq são distribuídas de maneira descentralizada. São os cursos que escolhem os seus bolsistas através do exame de entrada, as bolsas de iniciação cientifica são os orientadores que escolhem. A bolsa de pesquisa do CNPq, que é a bolsa de maior prestigio, é dada por um comitê nacional centralizado no órgão” afirma Alice.

Então são realmente as mulheres que não são qualificadas? Um argumento muito usado é o de que é questão de tempo para que as mulheres possam se qualificar e começar a ter acesso nesse nível maior da hierarquia, mas segundo pesquisas apresentadas pela Prof. Alice Rangel, isso é um mito. Apesar das mulheres terem uma porcentagem de participação muito grande nas publicações científica, um dos grandes indicadores de excelência da qualificação, o gráfico é uma linha reta, o seu lugar na hierarquia não muda.

Entra aí a questão de se consertar as instituições. Se os números mostram que as mulheres estão qualificadas, então porque não ocupam os lugares que poderiam e deveriam ocupar? Para Alice Rangel, “quanto mais se estuda a questão de gênero e ciência, mais se tem clara noção de que ao longo da carreira científica há vários processos sociais, de incorporação, de redes, de menores salários, de dificuldade em conseguir financiamento, uma série de processos sociais e culturais internos das instituições que baixam as mulheres.”

Sobre consertar o conhecimento em si a pesquisadora lembra que “a pesquisa científica hoje é muito diferente da pesquisa cientifica feita há 50 anos atrás. Ela é mais global, você tem atores novos, você tem desafios científicos muito mais complexos que exigem novos conhecimentos e abordagens, principalmente interdisciplinares”. E como fazer isso? Alice defende a definição de uma agenda de pesquisa onde a participação de homens e mulheres tenha uma equidade real; um processo de avaliação que seja extremamente eficaz; financiamento equilibrado; transparência e responsabilidade nos mecanismos de seleção e promoção com equidade de gênero; e a visibilidade à modelos de sucesso. “É preciso mostrar que existem mulheres qualificadas, que tiveram uma carreira promissora, elas tem que aparecer como visíveis e também continuar essa luta por indicadores e estatísticas confiáveis. Tudo isso sob uma lente de gênero, eu acho que a gente daria alguns passos para tentar resolver alguns dos desafios que ainda temos pela frente” afirma Alice Rangel.

Mas tudo isso precisa ser visto de acordo com a atual conjuntura do país. Simone de Beauvoir disse que “nos momentos de crise são os jovens e mulheres que sofrem as piores perdas”. A professora Estela Maria Motta (UFBA) chamou atenção para a responsabilidade que temos de discutir o tema principalmente “no momento de uma grave crise política no país que tem significado não apenas a ameaça às conquistas que a gente vem obtendo ao longo dos anos, mas a efetiva ação de destruição de muitas das coisas que a gente foi acumulando e que foram insuficientes para o grau de desigualdade sociais que a gente tem no país”. Não existe equidade de gênero sem democracia.

Ligia Matni

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