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Uma inovação virtuosa na educação brasileira

Por Isaac Roitman*

O sistema educacional está superado. O ambiente escolar não é prazeroso para estudantes e professores. As avaliações de aprendizagem são pífias, a violência é crescente e a evasão alcança níveis alarmantes. O  modelo educacional vigente, concebido em séculos passados,  não foi capaz de acompanhar as significativas mudanças que a sociedade passou a experimentar no alvorecer do século 21.

 Uma das experiências educacionais de maior sucesso das últimas décadas foi a implantação há 40 anos da Escola da Ponte (Portugal) pelo educador José Pacheco. Ela foi magistralmente descrita pelo saudoso Rubem Alves em seu livro: “A escola com que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir”. É uma escola sem muros, portas, salas de aulas, séries, avaliação tradicional e onde a solidariedade, autonomia e ética são valores essenciais para a preparação para a vida. Um modelo semelhante foi recentemente implantado pelo Professor Pacheco em Cotia, São Paulo (projeto Âncora). Esse incansável educador que vem conduzindo projetos semelhantes em vários estados do Brasil está implantando a primeira Comunidade de Aprendizagem do Brasil na cidade de Paranoá no Distrito Federal: CAP.

Trata-se de um novo modelo de escola que utiliza métodos inovadores de ensino, em que jovens e adultos, em interação com a comunidade, aprendem uns com os outros. O modelo se baseia no conceito bairro-escola, território educativo e de cidade educadora englobando projetos educativos que extrapolam os limites da escola, envolvendo toda a comunidade no processo de formação de seus indivíduos. Essa nova proposta é um poderoso instrumento para uma transformação social e cultural que envolve alunos, professores, pais e demais cidadãos. Um dos eixos dessa nova pedagogia serão os projetos individuais (com temas de interesse pessoal e de projetos de vida) e coletivos (que envolvem a comunidade e suas possibilidades).

A implantação da CAP está prevista para o início de 2018 tendo a frente um coletivo de educadores/as com cerca de duas dezenas de professoras e professores da Secretaria de Educação do Distrito Federal, que têm em comum a indignação com o atual sistema de ensino. A CAP atenderá crianças e jovens de um novo bairro, Paranoá Parque, implantado recentemente no Programa “Minha casa, minha vida”. Inicialmente atenderá 560 estudantes em turnos matutino e vespertino. Ela integrará a rede de escolas públicas do Distrito Federal e tem tido um louvável acolhimento da Secretaria de Educação.  No horizonte de um futuro próximo, unidades semelhantes ao CAP poderão ser implantadas no Plano Piloto e em outras cidades satélites do Distrito Federal. Para o sucesso dessa importante iniciativa é fundamental o apoio da sociedade brasiliense e brasileira na forma pessoal e institucional e particularmente da Universidade de Brasília. Em palestra recente na UnB, o Professor Pacheco assim se expressou: “A situação educacional só pode mudar se a escola, o poder público e a universidade andarem juntas. É preciso, de uma vez por todas, religar essas três esferas”. Professoras e professores da rede de ensino básico do Distrito Federal envolvidos na implantação do projeto tem participado de encontros construtivos no Fórum de Autonomia da Faculdade de Educação da UnB. O Núcleo de Estudos do Futuro da UnB, do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) e o Movimento 2022 O Brasil que queremos,  tem promovido encontros e mobilizado professores de diferentes áreas de conhecimento para conduzirem tarefas específicas importantes na implantação do projeto. Essa mobilização atende à convocação do educador José Pacheco no sentido de resgatar os ideais dos fundadores da UnB, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, a partir da indignação que tinham, à época do sistema educacional brasileiro.

Essa luz no túnel da educação brasileira merece o apoio e protagonismo de toda a sociedade. A CAP pode ter um significado que transcende a educação do Distrito Federal podendo ser um referencial para uma educação contemporânea para o Brasil e para o mundo. É pertinente lembrar o pensamento de Immanuel Kant: “É no problema da educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade”. Vamos todos juntos avançar. Vida longa à CAP.

* Professor emérito e coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro a Universidade de Brasília, Pesquisador emérito do CNPq,  membro da Academia Brasileira de Ciências e membro do Movimento 2022 O Brasil que queremos.

 

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