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Organizar a Resistência na Educação: uma agenda democrata

Por Luciano Mendes de Faria Filho

Com a vitória da extrema direita nas eleições presidenciais e em muito estados da República, há que se organizar as resistência societárias à violência fascista, à oficialização do autoritarismo como política de Estado, ao desmonte do Estado, ao ataque aos direitos, dentre eles o direito à educação. A recém apresentada proposta da Frente Evangélica é uma pequena mostra da nefasta política que se nos apresentará nos anos vindouros.

Numa perspectiva mais ampla, não é possível pensarmos na resistência apenas no campo da educação. Ou é uma resistência capilarizada, organizada e articulado com os mais diversos setores democráticos do país, ou seremos engolidos pela onda fascista que assola o país e que, agora, ganhará ares de oficialidade e de política de Estado.

Por outro lado, uma resistência organizada e articulada não se contrapões às resistências plurais, multifacetadas, nos mais diversos espaços e tempos de nossa resistência.  Pelo contrário, as supõe e as fortalece. Uma de nossos grandes desafios continuará, pois, sendo de articular processos nacionais e, mesmo, internacionais, com o plano local e micro. Nesse sentido, não há resistência que não se objetive, também, no cuidado com o corpo, com os corpos, com a vida singular de cada um e de cada uma. E, mais do que nunca, seremos convocados a isso, individual e coletivamente.

No campo da educação, qualquer perspectiva de resistência passa pelo reconhecimento e fortalecimento dos professores e professoras que atuam nos mais diversos níveis de ensino. Nessa perspectiva, minha avaliação pessoal, é no campo da educação escolar, da escola pública que logramos construir no último século,  o professora e a professora, ao lado dos demais profissionais da educação, são participes fundamentais de qualquer política e, logo, de toda a resistência ao descalabro fascista.  Também foi assim na ditadura: enquanto muitos(as) aderiram, outros(as), muitas vezes sem alarde, utilizaram as mais diversas táticas de resistência, fazendo coisas muito diversas nas escolas e nas salas de aula do que aquilo que a ditadura mandava fazer.

A esse respeito, uma de nossas mais importantes ações de resistência será criar uma rede de apoio  e proteção d@s profissionais da educação básica pra o enfrentamento do fascismo que já está se abatendo sobre as escolas. Terá que será uma rede de apoio de proteção jurídica e de saúde física e mental d@s profissionais da educação básica. Universidades, sindicatos, centros de pesquisa, movimentos sociais e voluntários numa ampla rede, organizada e capilar, que faça frente à capilaridade e intensidade dos investimentos fascistas das famílias, das igrejas e, mesmo, do poder público.

Nesta perspectiva, sem perder a especificidade da luta, a articulação das organizações sindicais e dos movimentos sociais de luta pela educação é imprescindível.  É preciso, penso, fortalecer os movimentos que hoje existem, as articulações locais, regionais e nacionais, bem como de todas elas com os movimentos internacionais de solidariedade daqueles e daquelas que sabem que no Brasil se joga um jogo muito importante para o futuro do planeta.

De uma forma mais específica, acho que nós que trabalhamos na interface da educação com a comunicação teremos um papel central em construir pontes e mediações com as demais  áreas, contribuindo para o fortalecimento daquelas ações que se desenvolvem nas várias interfaces da educação: saúde, artes, cultura,  terra…. A questão da comunicação se mostrou,  nos últimos anos,  de uma forma nunca antes vista, como um ponto nodal das nossas capacidades e incapacidades de enfrentamento do investimento neofascista no Brasil. Mas, para que façamos isso como seremos desafiados a fazer,  será  preciso uma ação conjunta  e profissionalizada nessa área. Temos nos  mostrado – alun@s, professoras(es), comunicadores,  ativistas… – muito criativos nessa área, mas nosso amadorismo drena a nossa energia e corrói boa parte de sua eficácia. A construção  e/ou o fortalecimento das redes, por exemplo, serão aspectos absolutamente fundamentais neste tempo que se avizinha (e que, em muitos aspectos, já chegou).

Sei que são ideias que grande obviedade e que não trazem muito de novo. Mas penso também que nos momentos em que as conquistas mais elementares e fundamentais de necessárias para vivermos e vivermos juntos estão ameaçadas, são também os momentos em que é preciso que voltemos para os repertórios mais elementares que nos foram legados por séculos de luta das esquerdas e dos democratas do mundo inteiro contra o arbítrio e a opressão organizados como política de Estado. Como em outros momentos, são essas ações de simples enunciação, mas de grande complexidade para de operacionalização, que serão os nossos grandes desafios de sobrevivência física, psíquica, intelectual, política e, por que não, profissional d@s democratas de todo o Brasil.

Imagem de Destaque: Pedro Cabral

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