O lugar da Universidade em tempos de obscurantismo

Afastado do Brasil e aguardando a posse do Presidente eleito do México, Manuel Andrés Lopes Obrador, tenho acompanhado, na medida do possível, presencial ou virtualmente, várias discussões que se fazem sobre  o Brasil dos últimos tempos. Por dever de ofício, têm me chamado a atenção as discussões que se fazem sobre o papel da Universidade em momentos como este.

Há uns três anos, Alexandre Vaz, um professor/pesquisador que muito tem contribuído para o nosso entendimento sobre a universidade brasileira, comentou, a propósito da recusa da PUC-SP em aceitar a Cátedra M. Foucault:

Mas a PUC é uma universidade e isso teria que valer antes de sua adjetivação. Como tal, haveria que estar submetida aos grandes compromissos da tradição universitária, aqueles que dizem respeito à autonomia e à universalidade, valorização do contraditório e do debate, pensamento livre e rigoroso. Não é isso que a PUC sinaliza ao recusar a Cátedra Foucault. Não foi isso que fez a Universidade Católica de Lovaina, Bélgica, onde Foucault ministrou, em abril e maio de 1981, o curso Mal faire, vraidire (algo como Agir mal, dizer a verdade).

Chama a atenção que os protestos contra a posição da PUC não tenham encontrado guarida e que rapidamente tenhamos passado à outra pauta. Parece que se trata apenas de mais uma linha na agenda que, página virada, já com ela não há mais o que fazer. Mas não é pequeno o problema e ele se coloca nos termos de um desfalque no espírito republicano. Cada instituição, obviamente, tem o direito à crítica, assim como deve acontecer com qualquer pessoa. Muito diferente, no entanto, é fazer a sociedade e a vida pública reféns do obscurantismo e, ainda por cima, evocando a liberdade de opinião. Além de cinismo, é prática antipolítica.

Não por acaso, o texto do Alexandre Vaz tem por título “Universidade e Obscurantismo”. Relendo este texto, me lembrei de uma reflexão de Umberto Eco, já repercutida aqui, defendendo que, em tempos de tagarelice como este em que vivemos, a Universidade cumpre um papel muito importante se cultivar o silêncio e a reflexão.

No tumulto do mundo atual, os únicos locais de silêncio, ao lado das sedes de meditação religiosa, são as universidades. Elas ainda fazem parte daqueles poucos lugares em que é possível um confronto racional entre diversas visões do mundo. Espera-se que nós, universitários, combatamos – sem fazer uso de armas mortais – a interminável luta pelo progresso do saber e da pietas.

Em ambos os casos, há a crença de que existe uma “tradição universitária” e que esta é uma importante aposta contra o obscurantismo. Nesta mesma linha, no Seminário Anual do Pensar a Educação Pensar o Brasil de 2017, cujo tema era A Universidade e a Cidade, a conferência de abertura foi do professor Franklin Leopoldo Martins, da USP. Ele defendeu a importância da Universidade como lugar da pesquisa, do ensino e do pensamento críticos e o papel fundamental da instituição no combate ao obscurantismo. Mas, também não deixou de ponderar que, como instituição histórica que é, nada assegura, de antemão, a sua existência nas próximas décadas já que os tempos em que vivemos não cultivam os ideais que presidiram e, de certa forma, presidem, a existência da Universidade.  Em seguida, veio o professor Roberto Leher, e chamou a atenção para a dimensão fundamental da inserção da Universidade na vida da cidade, dando vários exemplos  sobre a própria inserção da UFRJ, Universidade que dirige, na cidade do Rio de Janeiro. Diferentemente de Franklin Martins, Roberto Leher defendeu a ideia de que a Universidade, mesmo transformada, é parte constitutiva a essencial da vida contemporânea, e assim vai continuar por um bom tempo ainda.

As duas posições que, nuançadas, não são necessariamente contraditórias, apontam, me parecem para dois dos grandes desafios que marcam a Universidade nestes tempos de obscurantismo. Por um lado, se a Universidade deixar de cultivar o silêncio, as pesquisas demoradas, a reflexão fundamentada, a exposição rigorosa e o pensamento críticos, deixará certamente de ser Universidade.  Essa é uma forma fundamental de a instituição inserir-se na dinâmica da vida contemporânea, da cidade e do campo, e contribuir por meio da formação, da produção do conhecimento e das trocas com as demais instituições e grupos sociais, para a democracia e a construção de sociedades que valorizem cada vez mais as diversidades e mais igualitárias. Nesta direção, penso também que a Universidade tem que acolher, abrigar e reconhecer aqueles e aquelas, os múltiplos sujeitos que, em torno do conhecimento e do conhecer, mobilizam seus corpos, a vida por inteiro, para entender e transformar os territórios que habitam e pelos quais são também habitados.

De outra parte, sobretudo em tempos sombrios e de cultivo do obscurantismo, de regressãopolítica e de grande investimento contra os corpos, as subjetividades e os saberes de sujeitos específicos – mulheres, negros, povos indígenas, sujeitos LGBTQI – como o que estamos vivendo, penso que a Universidade tem que ter uma forte atuação no espaço público, não apenas em defesa da “liberdade de cátedra”, mas da democracia, das diversidades e da maior igualdade e contra o obscurantismo. Ou seja, a universidade, em tempos de “menos política e mais polícia” tem que fazer Política.

Para isso, penso que todos nós que vivemos da e na Universidade temos que investir nossas energias, ou pelo menos parte delas, em retomar o lugar da Política no fazer universitário e recusar a primazia da racionalidade econômica ou, pior, economicista, na definição dos rumos da instituição. Isto significa,em outros termos, o exercício de nossa capacidade de crítica à crescente tradução da economia em dimensões e disposições políticas que ditam o ritmo e as prioridades da universidade.

Certamente que isto não é fácil, inclusive porque parte da universidade não é totalmente alheia às seduções da barbárie e, noutra dimensão, boa parte do governo das universidades é feito justamente pelos grupos que conseguem melhor traduzir as “demandas” da economia e do “mercado” em demandas de conhecimento e de formação.

Se, por um lado, os desafios que se colocam para a universidade, seja no seu “governo interno” seja na relação com seu em torno, são grandes e as promessas de campanha de Bolsonaro e sua “família” tendem a agravá-los ainda mais, não menos importantes são os desafios para o exercício da necessária internacionalidade das nossas instituições.

Muito se diz que, cada vez mais, vivemos numa “sociedade do conhecimento” e que este é produzido “globalmente”. Na verdade, outros e vários autores(as), menos midiáticos, já disseram também que vivemos numa era em que a economia tomou o lugar da política e que o conhecimento, em sua forma de mercadoria, é mobilizado continuamente para a acumulação capitalista e para a produção de desigualdades, inclusive com a crescente utilização das ciências e das tecnologias para a produção de “desconhecimentos” em massa.

Nesta perspectiva, também não podemos esquecer que as escolhas epistemológicas comportam dimensões políticas, e que a naturalização da “globalização da ciência” é, em boa parte, a expansão de modos nacionais (ou mesmo locais) de fazer ciência como se fossem universais.  Na verdade, ninguém faz ciência no “global”. Esta é, em boa parte, uma ficção que resulta da tradução dos valores, procedimentos e interesses muito localizados de quem tem poder como sendo válidos para todos. Assim, o sentido e a direção do movimento de internacionalização também serão mais ainda tensionados nos próximos anos. As políticas e ações voltadas para uma internacionalização Sul-Sul, se já tinham sua validade questionada nos momentos anteriores, mais ainda o serão agora, e caberá às forças democráticas que atuam dentro das Universidades fazer frente a isso.

Equilibrar silêncio, reflexão, pesquisa, rigor e criatividade com a necessária interlocução com o alarido da cidade e, ao mesmo tempo, a atuação local/regional/nacional com a necessária articulação com outros locais e culturas acadêmicas e científicas que se situam fora das nossas fronteiras, não são, de forma alguma, desafios novos e muito menos iniciados nestes momentos sombrios em que vivemos.  Talvez a importância que adquirem hoje é que, mais do que nunca, em nossa curta experiência de vida universitária, eles se colocam, pela primeira vez, como desafios importantes na defesa da própria existência da Universidade tal como nós a conhecemos e, de certa forma, a concebemos. Nestes termos, a luta pela universidade e pela continuidade da “cultura universitária” é uma importante tricheira da luta contra a barbárie política e epistemológica que nos ameaça a todos.


Imagem de destaque: Pichação no banheiro do Centro de Atividades Didáticas 3 da UFMG. Foto: Marcílio Lana/UFMG

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