O Ensaio Geral do Governo Bolsonaro e a Resistência Democrática

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Por Luciano Mendes de Faria Filho

Como era de se esperar, a segunda semana do governo Bolsonaro vem sendo marcada por duas tônicas: a agressão aos direitos, por um lado, e as ações pirotécnicas e estapafúrdias de membros do governo, por outro. Muitos querem ver nas segundas estratégias de acobertamento das primeiras. E talvez tenham razão. Mas, me parece que não de todo.

Tod@s sabemos que o conglomerado de agentes e grupos que se reuniram para eleger Bolsonaro e o General para a Presidência, jamais teve outra unidade que não a de ataque aos direitos e aos avanços democráticos e a criação das condições para o aprofundamento das políticas neoliberais no Brasil. Fora isso, são grupos que têm muito pouco em comum.

Como muito já se analisou e se falou, são vários os “núcleos” que compõem o governo, muitos dos quais não dialogam com os outros. No entanto, além de grandes divisões internas, no que diz respeito à moral, à cultura, à ciência, por exemplo, as ações estapafúrdias dos membros do governo se avolumam devido à reconhecida incompetência daqueles e daquelas que foram escolhid@s para levar à frente as políticas do novo governo. Como simplesmente não sabem o que fazer e como fazer, tomam decisões que, em seguida, têm que ser revistas, como vimos nos últimos dias.

Todavia, apesar da previsibilidade de boa parte do que tem sido feito pelas equipes de governo – só mesmo a alguém desavisado surpreende a performance da Ministra Damares -, chama a atenção a virulência e a vontade com que tais grupos do “núcleo” moralista, cultural, religioso e educacional se batem pelo retorno dos parâmetros pré-modernos de ordenamento da vida cotidiana. Se este foi o ensaio geral, por ele é possível prever o espetáculo dantesco que vem por aí!

Mas como moral, cultural, religião e educação são, também, economia e política, e vice-versa, a gente não deve levar muito ao pé da letra a ideia de que o governo é composto por “núcleos” relativamente autônomos. Se, por um lado, estão todos voltados para a destruição dos direitos e dos pilares da vida democrática, também é verdade que o ridículo como forma de governo compromete a credibilidade desde mesmo governo com importantes grupos de apoio. Do mesmo modo, à medida que a população for sentindo na pele os impactos das decisões econômicas, tenderá a rever seu apoio às propostas reacionárias no campo da cultural, da moral, da educação e, mesmo, da política.

 

O combate ao governo Bolsonaro e às perversas políticas tem que levar estes aspectos em conta. Mas precisará ser inteligente o bastante para conseguir  comunicar-se com a população, sobretudo aquela expressiva parcela que escolheu a “família bolsonaro”  para nos dirigir nos próximos quatro anos, mesmo tendo a consciência de que suas propostas as prejudicariam em termos da retirada de direitos e, mesmo,  de perda de recursos financeiros.

 

Mais umas palavras a respeito da resistência: penso que não é possível   e nem consistente pensar  que  “ precisamos inventar” resistências em todos os quadrantes da vida social o tempo todo. Muitas iniciativas já vinham sendo feitas e de modo muito interessante na promoção dos direitos, das diversidades e das igualdades, e  que continuam sendo levadas a cabo. É preciso reconhecê-las e à sua importância. Muitas estratégias já vinham sendo mobilizadas e muitos movimentos já vinham atuando. É preciso reconhecê-los e fortalecê-los.

 

Mesmo no campo da comunicação, em que nossas estratégias  e nossos entendimentos se mostraram muito aquém dos desafios da luta político-cultural dos últimos anos,  há muito coisa interessante acontecendo no Brasil.  Talvez o que falte, sobretudo no campo da educação, por exemplo, seja articularmos mais redes e  coletivos ao invés de continuarmos atuando por meio de projetos isolados.  Mas, certamente, a nossa luta e nossa resistência não começam do zero e as coisas, mesmo no futuro próximo, estão determinadas. Neste sentido, as disputas internas, a incompetência e a pirotecnia que marcam o governo Bolsonaro são dimensões que atuam a nosso favor e  flancos importantes que devemos explorar.  E para isso é preciso ter meios e estratégias, os quais é preciso inventariar ou inventar e fortalecer.

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