Não deixemos os novatos e os velhacos fecharem a FAPEMIG!

Luciano Mendes de Faria Filho*

A minha trajetória pessoal de professor e pesquisador está umbilicalmente ligada à FAPEMIG.  Fui da primeira “turma” de bolsistas de iniciação científica da Fundação, em 1987. Na época, desenvolvi uma pesquisa sobre a formação de professores em Minas Gerais nas primeiras décadas do século XX que foi fundamental para a realização do meu mestrado, na UFMG, e do meu doutorado, na USP, e para a minha definitiva inserção no campo da história da educação. Certamente, não fosse aquela bolsa, aquela pesquisa, e as orientadoras que tive, Eliane Marta T. Lopes e  Maria Alice Nogueira, não teria eu feito a trajetória que fiz.

Tempos depois, já perto de concluir o doutorado, foi também a FAPEMIG que me apoiou em minha primeira participação em um congresso internacional, o Congresso Luso  Brasileiro de História da Educação, realizado em Lisboa em janeiro de 1996. Depois, já na UFMG, passei a contar com regular apoio da Fundação para a realização de pesquisas, participação em congressos e publicação de livros. Ao mesmo tempo, passei a orientar bolsistas de iniciação científica e, depois, a colaborar com a FAPEMIG em diversos momentos.

Sei, no entanto, que essa trajetória, em suas características mais marcantes, é compartilhada por vários colegas, muitos dos quais estão, hoje, atuando nas melhores universidades do Brasil e do exterior. E, ao mesmo tempo, essas trajetórias são aspectos particulares do imenso impacto que tem a FAPEMIG nos mais diversos setores da vida científica, acadêmica, econômica, social e, mesmo, política, de todas as Minas Gerais. Isso significa, muito claramente, que a Fundação é um patrimônio de todo o povo mineiro e, muito especialmente, de toda a comunidade científica e tecnológica do estado.

Por isso tudo, foi com imenso pesar e indignação que fiquei sabendo da suspensão dos pagamentos dos projetos de pesquisa já aprovados e, sobretudo, da suspensão do pagamento de mais de 4.000 bolsas,  também já aprovadas pela Fundação para serem implantadas a partir de 1º de março de 2019. Tal decisão, segundo comunicado da própria FAPEMIG, se deve ao não repasse pelo Governo do Estado dos recursos devidos à Fundação.

O impacto de tal decisão do Governo do Estado é profundamente desastroso Não apenas inviabiliza os projetos atuais, com compromete o futuro, ao impossibilitar a formação de novos(as) pesquisadores(as) nas mais diversas áreas do conhecimento. Todos sabemos que a FAPEMIG, apesar do trabalho incansável de seus dirigentes, há muitos anos não consegue receber com regularidade o percentual de 1% das receitas do Estado, conforme determina a Constituição estadual. No entanto, desde que começou a funcionar, este é a primeira vez que o Programa de Bolsas de Iniciação Científica é suspenso e a Fundação se vê na iminência de inviabilização.

O obscurantismo dos tempos em que vivemos pode mostrar sua cara das formas mais diferenciadas. Assim, tanto pode vir sob a roupagem daqueles e daquelas que, ocupando os cargos mais altos da República, dizem não “acreditar” na ciência, quanto daqueles e daqueles que, numa perspectiva míope, abraçam o fundamentalismo técnico-gerencialista e pensam que a administração pública deve se submeter as regras do “mercado”, mesmo que para isso sejam sacrificadas instituições, como a FAPEMIG, estratégicas para o desenvolvimento do Estado.

É alvissareiro ver a mobilização de vários setores e de várias instituições em defesa da FAPEMIG. Mas para salvá-la e colocá-la em pleno funcionamento, não bastam os esforços de seus dirigentes, dos dirigentes de nossas instituições de ensino e pesquisa, da SBPC e, mesmo, de algumas parlamentares comprometidas com o desenvolvimento mineiro. É preciso que esse movimento tome corpo no conjunto das universidades e centros de pesquisa e que envolva o movimento docente e estudantil.

Sabemos, outrossim,  que a população mineira acredita na importância da ciência e quer ter mais acesso ao conhecimento científico. Essa é uma boa notícia para que, num futuro próximo, possamos criar condições para que a FAPEMIG não precise mais passar pela situação que se encontra neste momento. Mas, para isso, me parece, é preciso que nos comuniquemos mais e melhor com a população acerca do que fazemos. É preciso que informemos à população, por exemplo, que não queremos privilégio para a ciência, como li essa semana, mas tão somente que o Estado cumpra a Constituição e repasse o que é devido à FAPEMIG. E este, também, deve ser um desafio a ser enfrentado por todos nós que trabalhamos com ciência e tecnologia no Estado. Oxalá o atual momento nos ajude a tomar uma maior consciência disso!

* Doutor em Educação, é professor Titular da Faculdade de Educação da UFMG. Foi membro da Câmara de Ciência Humanas e Educação da FAPEMIG e do Conselho Deliberativo do CNPq. Atualmente coordena o Pensar a Educação Pensar o Brasil – 1822/2002, projeto de ensino, pesquisa e extensão desenvolvido por vários instituições nacionais e que conta com o apoio da FAPEMIG.

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