História das eleições no México e no Brasil: comentários acerca de uma exposição.

Por Luciano Mendes*

Está em aberta, no Museo del Objeto, na Cidade do México, uma muito interessante exposição para aqueles(as) que se interessam pelas eleições como um símbolo da democracia representativa. Sob o título de Ciudadanía, Democracia y Propaganda Electoral em México: 1910-2018, estão expostos objetos os mais variados que foram  produzidos e/ou mobilizados no período de mais de um século de eleições no país, como se pode ver nas fotos abaixo.

A desnaturalização dos objetos, operada pela proposta expográfica, é admirável!  Como se vê, são canecas, broches, relógios, canetas, lápis, pratos, tigelas, cinzeiros, chaveiros e…até tênis, que são transfigurados e mobilizados como emblemas de campanha!

O trabalho de pesquisa e a expografia são muito bem feitos e apresentados, denotando, em seu conjunto, uma clara conotação  crítica, política e democrática. Se se considerar que a exposição foi aberta em abril de 2018, alguns meses antes, portanto, das eleições de 1º  de julho, não deixa também de ser um modo de intervenção nos intensos debates eleitorais que mobilizaram o país nos últimos meses e cujas eleições resultaram no candidato de esquerda,  Andrés Manuel López Obrador.

Com o intuito de  conduzir a atenção do visitante, a narrativa é produzida também por meio de textos, gráficos, imagens. Nestes, um aspecto que me chamou muito a atenção se refere à participação feminina nas eleições. Apesar de chamar a  atenção para a questão do sufrágio feminino, a exposição  permite problematizar outros aspectos como a própria apresentação/representação da figura feminina nas eleições e a violência, uma presença constante e assustadora nas eleições atuais.

No que se refere ao voto feminino, chamou a minha atenção que esta é, no México, uma conquista recente: apesar de alguns estados reconhecerem o direito do voto feminino deste da década de 1920, apenas em 1953 se reconheceu nacionalmente o voto das mexicanas. No entanto, as mulheres mexicanas, que vinham lutando pelo sufrágio desde o século XIX, se mostraram combativas e presentes  no transcurso das décadas seguintes na disputa para o Congresso Nacional: se na legislatura de 1958-1961 elas eram apenas 4,9%, na atual legislatura elas representam 51% do Senado e 49,1% na Câmara dos Deputados. Há muito a se avançar para chegar a uma igualdade de gênero, sobretudo nos cargos executivos,  mas certamente é notável o que se fez em tão pouco tempo.

Vendo estes dados, alguns dos quais estão na Exposição, lembrei-me que a conquista do voto feminino, no Brasil, antecede duas décadas à conquista das mexicanas. No entanto, a nossa situação frente a elas é lastimável: na legislatura que agora chega ao fim, as mulheres são apenas 10,5% das Deputadas e 16% das Senadoras. É uma das menores participações femininas nos Congressos Nacionais do mundo inteiro!

No momento em que, no Brasil, nos preparamos para mais uma eleição, a Exposição me fez pensar o efeito perverso que a excessiva concentração das atenções em torno dos candidatos a Presidência da República acaba por ter na discussão da composição do Congresso Nacional (e dos demais legislativos). A cassação do mandato da Presidenta Dilma certamente pode ser lida, como já o foi, como a reação machista à intromissão feminina no mais alto cargo da República. Mas a continuar com a baixa discussão sobre as eleições para o legislativo, tal composição e tais posições tendem a se alterar muito pouco. E não necessariamente para melhor!

Ps: Quando saía da exposição e disse que era brasileiro, um dos agentes do Museu comentou que, no Brasil, diferentemente do México, se prende um ex-Presidente. Reagi dizendo que o processo que levou Lula à prisão é marcadamente injusto. Mas não sei se o convenci.

 

*Estou no México para uma estadia de 5 meses como Professor Convidado da Universidade Pedagógica Nacional e para a realização de uma pesquisa sobre as representações no Brasil nos livros didáticos mexicanos. Agradeço à profa. Rosalia Menindez pela acolhida e ao CNPq pelo apoio.

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