Explicando o Brasil para um estrangeiro.

Juiz Sérgio Moro. Foto: Pedro de Oliveira/ ALEP                                    General Villas Boas. Foto: Tiago Corrêa -Dircom/ CMM

Por Luciano Mendes

Daqui de longe, tão longe quanto permitem, por um lado, a distância e o trabalho e, por outro, os contatos virtuais com colegas e com aquilo que se passa no Brasil, outro dia tive que tentar explicar para um colega mexicano, ele também interessado na sorte do país e nos rumos da democracia no continente, o que está acontecendo em meu país. Confesso que nunca achei tão atual a frase de Jobim de que o “Brasil não é para principiantes”.

Meu colega tem acompanhado razoavelmente o que ocorre no Brasil. Mas, ele dizia não entender como pode a Presidenta ter sido cassada por um suposto crime que, em seguida, o novo  presidente estabeleceu que já não era mais assim. O cúmulo da desfaçatez, dizia ele. Também a ele chama a atenção o fato de que, a cada dia, todo os dias, parece ser tomada alguma decisão pelo governo que contraria a democracia e as políticas públicas  voltadas ao bem comum.

Ficamos, então, conversando sobre o que se passa no Brasil hoje. E, na conversa, disse a ele que é difícil precisar quando isso tudo começou. Bem sei das armadilhas que se apresentam àqueles(as) que buscam o “início das coisas”, pois esse procedimento nos leva, quase que inevitavelmente, a um passado cada vez mais distante. No entanto, não pude deixar de explicitar a ele a minha convicção que o  que ocorre no Brasil hoje, teve seu  lance capital na divulgação pelo Moro da gravação da conversa da então Presidente da República, Dilma Rousseff, com o ex-Presidente Lula.  Foi ali, me parece, que foi jogada a cartada fundamental.

A patente ilegalidade do ato e, do mesmo modo, a explícita conotação política da atitude do juiz que comandava o caso, deveria ter mobilizado imediatamente a reação dos magistrados da Suprema Corte. No entanto, não foi isso que aconteceu. O STF, que já havia aprovada as ilegais justificativas para o impedimento da Presidenta sob a justificativa de que se tratava de um procedimento político e, portanto, sob a esfera do parlamento, agora de acovardava diante de uma atitude que, em tudo, se dava no campo jurídico e, portanto, sobre a sua esfera de julgamento. Colocava-se, pois, como partícipe do golpe e sustentáculo de suas consequências jurídicas inconstitucionais. A este respeito, é muito interessante o artigo do Marcos Coimbra, na Carta Capital, sobre o pensamento político do ministro Barroso, uma das lideranças intelectuais do judiciário Brasileiro.  Ali se vê que, como o povo não sabe votar,  o golpe é necessário para garantir a  democracia!

A conversa com esse meu amigo ocorreu no sábado à noite e, é claro, não podíamos deixar de falar do atentado contra o Bolsonaro. Eu disse que, apesar da gravidade do ato do ponto de vista do jogo democrático, não me parecia surpreendente, apesar de condenável, o ataque. Sobre as consequências eleitorais do atentado, dizia que Bolsonaro estava próximo do seu limite de crescimento, ou seja, dos 20% e não iria passar muito disso. Naquele momento, eu não tinha visto, ainda, a no General vetando a candidatura do Lula. Assustador, mas em nada surpreendente se se considera o passado (e o presente!), das forças armadas no Brasil. Mas explicitava um outro fator importante da equação: o militar. Não é sem motivo que o  Aldo Fornaziere, em artigo no GGN, batizou a aliança que se forma agora em torno do Bolsonaro,  como sendo uma “aliança judiciário-militar”. Concordo com ele!

Segundo ele,

A operação Lava Jato conformou o Partido do Estado, que agrega a elite judicial, das polícias, das Forças Armadas e do Ministério Público. A sua primeira manifestação foi uma espécie de “rebelião do procuradorismo” contra o mundo político e, particularmente, contra o PT, que naquele momento estava no poder. No seu último momento, Bolsonaro é o candidato que congrega e unifica essas elites do funcionalismo estatal, que não se move apenas pelo moralismo, mas também por ideologia e para manter e ampliar os altos salários e os privilégios. A natureza dessas elites públicas é conservadora e antipopular.

E, no final, sentencia:

O golpe fracassou política e moralmente, o que provocou a dispersão e a divisão de suas forças. A possibilidade de ser derrotado eleitoralmente com Lula ou sem Lula está produzindo um movimento de reagrupamento, ao que tudo indica em torno Bolsonaro.  Na medida em que a exclusão de Lula, com toda sua imensa força política e eleitoral, ameaça pender com a espada da ilegitimidade sobre o pescoço do novo governo, se for do campo conservador, as elites agora querem construir sua garantia pela via da tutela judicial-militar.

A necessidade de brandir a  palavra de ordem “Política ou Barbárie” e, infelizmente, mais atual neste momento do que foi nos últimos 30 anos de nossa história. Não são poucos os brasileiros e brasileira “de bem” que nos querem levar, de novo, para os períodos mais sombrios de nossa história. E contra isso é preciso agir em todos os quadrantes do planeta!

Imagem de destaque: Vinicius Amano

This Post Has 2 Comments
  1. Excelente, Luciano! Eu ainda somaria o mediático ao jurídico-militar, agora que Globo e Estado de São Paulo apóiam esse grupo. Mais incrível é a falta de resposta às declarações do Mourão e do Villas-Boas. Todo mundo fazendo cara de paisagem. Minha preocupação é que as eleições não vão por um ponto final nisso. Vão só marcar o começo de outra fase.

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