Economia e verniz democrático: alta escolaridade e definhamento da política

Por Matheus da Cruz e Zica

Durante essa semana a Europa acompanhou estarrecida os noticiários a respeito da batalha que se desenrolou na cidade alemã de Chemnitz que deve ser considerada no mínimo preocupante. A cena da praça em fogo era assistida do alto pela grande estátua de Marx que ali se encontra. Os escritos em pedra que acompanham o busto do grande teórico do comunismo – Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos – contrastavam flagrantemente com os slogans dos grupos de extrema direita que ali se juntavam, em meio aos quais uma frase mais específica se destacava: Criminosos. Estrangeiros fora!

Para os europeus que experimentaram o extrapolar de todos os limites durante a Segunda Guerra Mundial, tal quadro reaviva memórias de dar calafrios – alguns manifestantes faziam inclusive a saudação nazi, proibida na Alemanha. Para um brasileiro, esse acontecimento deve remeter imediatamente ao presente: à candidatura de um racista e defensor da tortura para a presidência do Brasil.

Para nós educadores o fato desse candidato, apontado há meses como segundo colocado nas intenções de voto, ter como eleitorado principal um público considerado como portador de alta escolaridade deve ser um elemento crucial para nossas reflexões. Parece que nossa alta escolaridade produziu adultos de um nível muito baixo. Será que a resposta desse enigma está no tecnicismo do ensino escolar que nós da educação já tanto criticamos? Em parte considero que sim. (será a existência subterrânea da escola sem partido, que para vigorar não precisou sequer ser aprovada??? será???)

O candidato em questão, arruaceiro, irresponsável, sempre pronto a tentar intimidar pelo grito, escondido sob o semblante de um leão bravo… mostrou na verdade não passar de um gatinho medroso, incapaz de argumentar. Um fujão. Se acovardou diante da figura frágil de Marina Silva que lhe aplicou um verdadeiro “sabão” em rede nacional e depois disso informou por meio de assessores que não iria mais participar de debate nenhum. Eis, senhoras e senhores, o machão que vende a ideia de que vai proteger os adultos infantilizados e incapazes que o apoiam, assumir o lugar de pai para os cidadãos de bem ( ou deveríamos dizer criancinhas de bem?).

Esses cidadãos de bem, o “pessoal da sala de jantar” – como diziam os Mutantes –, estão inebriados com a encenação daquele embusteiro, sempre gritando, ironizando, e simulando com as mãos o ato de atirar. O pobre coitado que se presta a esse ridículo papel foi apontado pelo próprio general que estava em seu comando como um sujeito de pouco juízo, fator decisivo para que fosse afastado da caserna ainda nos idos da década de 1980. Definitivamente por suas características próprias ele não tem os requisitos que se costumeiramente imagina em relação à alta escolaridade. Mas é fato que uma boa parte da população brasileira dita portadora desse epíteto consagrador tem conseguido sim nele se reconhecer… e isso é que é o nó de todo o problema.

Ele gosta do barulho, do holofote, da exibição… de assuntos realmente importantes, daquilo que um presidente não pode mesmo deixar de saber, por exemplo da economia, que hoje tem uma preponderância indiscutível nos rumos de todos os países… disso ele não tem nada a dizer. Sobre esse ponto crucial sua resposta é sempre a mesma…: fale com o Paulo Guedes! Eis o banqueiro que está por trás desse fantoche deplorável, dessa marionete que late mas não morde. O tal banqueiro é um sujeito doutorado em Chicago e sua alta escolaridade quer se prestar a fazer o serviço sujo de vender o Brasil e, a custa disso, deixar o país culturalmente e socialmente se afundar em torno da narrativa simplista do mocinho e do bandido que o maluco do quartel alimenta (disso esse coitado é capaz…) – e nisso acompanhado pela altamente escolarizada mídia conglomerada do país.

Também nesta semana assistimos a alta escolaridade de alguns juízes atuar a favor desse menininho medroso que se esconde atrás da figura de bicho papão. Ao se referir a quilombolas, em um evento gravado, o menininho usou o termo “arrobas” para falar daqueles seres humanos, uma unidade de medida própria para designar o peso de animais. Cinco juízes estavam lá para o trâmite. Dois deles, provando sua alta escolaridade, consideraram que essa comparação não tinha nada demais. Outros dois o consideraram culpado. E a alta escolaridade do quinto elemento, daquele que iria definir a sentença… pediu mais tempo para pensar… As afirmações preconceituosas estão inclusive divulgadas na internet. Há provas, portanto… mas faltou convicção.

«Outro candidato à presidência foi julgado, mas a pressa, a convicção e a falta de provas… tudo correu de forma diferente com as altas escolaridades dos que presidiram aquele caso…»

Afinal o que é educação? Ela se confunde com a alta escolaridade? Onde se opera a disjunção entre o avanço do saber técnico e o avanço do refinamento humano? É uma questão profunda e muito complexa. Certamente demanda muitas páginas para respondê-la.

Sobre a disparidade entre Bolsonaro e Paulo Guedes, desta sabemos dizer: é uma questão de aparência. Trata-se na verdade da consumação de um projeto bem amarradinho e consonante: a liquidação da política. Na ponta de Paulo Guedes, o saber técnico que admite o triunfo da economia e da iniciativa privada. Na ponta do sádico Bolsonaro, a promessa da garantia de liquidação de qualquer voz dissonante, ou de qualquer intervenção que venha do espaço público no afã de interferir na liberdade da mão invisível do mercado.

Atualmente o lobo-mercado tem caminhado camuflado de democracia-ovelha. Mas o momento do se desembaralhar das fantasias parece ter mesmo chegado. Jean-François Lyotard já havia formulado essa equação em princípios dos anos oitenta quando publicou sua obra Le Différend:

Assim o gênero econômico do capital não exige de modo algum o agenciamento político deliberativo, que admite a heterogeneidade dos gêneros do discurso. Antes pelo contrário: ele exige sua supressão. Ele o tolera apenas na medida em que o laço social não se encontre (ainda) inteiramente assimilado à única frase econômica (cessão e contracessão). Se um dia for o caso, a instituição política será supérflua (…). (p.230)

Cremos ser esse o ponto em que chegamos com a formulação dessa candidatura – que conta com o apoio dos EUA, mídia e judiciário, todos semblantes do poder do capital, conforme magistralmente demonstrou Jessé de Sousa. É chegado o momento em que o gênero econômico do capital já não quer admitir a heterogeneidade dos gêneros do discurso. Chegou a hora de exigir sua supressão. O dia em que a instituição política será supérflua!

A grande ferida que no meio do século XX estoporou na Alemanha, durante essa semana deu de novo um pequeno aceno naquelas terras. Já pelas bandas da América Latina ela quer de novo se escancarar. Mas o Marx pétreo de Chemnitz continua de pé, na praça pública.

Fonte da Imagem: https://www.20minutos.es/noticia/3428650/0/chemnitz-ultraderecha-alemania-origen-manifestaciones/

This Post Has 7 Comments
  1. O texto lança luz sobre o que está por trás do discurso de um aparente louco , mostrando que o crescimento da popularidade de um facínora não foi fortuito, pois teve o apoio de uma parcela considerável de uma população dita escolarizada. Mas o mérito maior to texto está na explicitação do apoio que recebe o candidato fascista do conglomerado midiático e da instância máxima do judiciário brasileiro, o STF. Interessante produção de um intelectual que tomou a sério ditos de um imbecil (Bolsonaro), não tomando o discurso do referido ser como simples asneiras, mas como estratégia eficiente de conquista de capital político. Os intelectuais poderiam ter levado mais a sério, desde o início, esse arremedo de nazista brasileiro. Se isso tivesse acontecido, talvez, não estivéssemos prestes a mergulhar num poço sem fundo.

    1. Agradeço profundamente ao Sr. Carlos pela leitura atenta do texto e pela atenção em comenta-lo. É preciso estar em guarda quando a própria democracia está ameaçada pelo discurso fácil e perigoso de eliminar o outro, o diferente. Política se faz com argumentação racional, quando saímos desse registro já estamos na barbárie.

    1. Agradeço imensamente a Sra. Alice pela leitura do texto e pela oportunidade de diálogo. É exatamente isso: o momento é grave. A cultura está frontalmente ameaçada pela barbárie. A razão e o bom senso devem vencer o obscurantismo marcado pelo grito, pela voz de mando e pelo autoritarismo.

  2. Antes de mais nada e bom esclarecer que ainda não tenho um voto definido , digo isto para em um primeiro momento manter uma isenção no que se refere a nomes de candidatos a presidência ,alem disto não sou nenhum intelectual ao contrario sou povo . O texto acima foi enviado por uma amigo , que durante uma conversa sobre temas relacionados a politica disse ; vou enviar um texto muito bom que trata dos temas atuais. Achei o texto muito bom de fácil entendimento ,porem , lendo o texto o meu sentimento como um brasileiro normal, é que falta sinceridade ( não sei se seria a palavra correta ) ou um melhor detalhamento dos fatos , dos sentimentos de muitos brasileiros como eu ,que nos sentimos traídos por um projeto de governo ou melhor de poder que por trás de um discurso de liberdade e igualdade, o resultado foi inverso ; corrupção , difamação , censura a liberdade de se posicionar a favor ou contra , usa-se a palavras extremista, racista, fascista , mas não procura reconhecer os erros que estão levando as pessoas a buscarem uma posição mais conservadoras e buscam esta posição não por ideologia mas sim por trazer um sensação de segurança de porto seguro ou ate mesmo com um sentimento de começar do zero e ir reconstruindo de novo .

    1. Prezado Júnior,
      Agradeço ao Sr pela leitura e atenção em enviar o comentário. Como todo historiador que conhece o que foi o horror das experiências totalitárias (nazismo foi a máxima expressão disso) me preocupa ver a ameaça de seu reaparecimento. Há décadas a grande mídia brasileira tem seguido contra os interesses do povo. É comprada pelo capital internacional – sobretudo americano- que quer ver aqui novamente a miséria para com isso encontrar mão de obra a mais barata possível. Quem primeiro condenou o Lula foi a Globo. O certo juiz de Curitiba só fez o teatro da formalidade. Como a população brasileira não tem outra fonte de informação se não a própria grande mídia o resultado é esse: se sentir traído por aquele que realmente fez algo pelo povo. E só não fez mais por que contar com a maioria no Congresso exigia fazer muitas concessões para aqueles que são contra o povo. Que querem um Brasil para poucos. A emoção do ódio não nos vai levar a lugar algum. Voltemos a racionalidade, aos argumentos e procuremos estudar . Ir além da grande mídia que é na verdade um porta-voz do capital.

  3. […] Economia e verniz democrático: alta escolaridade e definhamento da política – Matheus da Cruz e Zica Para nós educadores o fato desse candidato, apontado há meses como segundo colocado nas intenções de voto, ter como eleitorado principal um público considerado como portador de alta escolaridade deve ser um elemento crucial para nossas reflexões. Parece que nossa alta escolaridade produziu adultos de um nível muito baixo. […]

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