Bicentenário da Independência: organizar um 2022 alternativo e popular!

No final de 2006, quando organizamos o Projeto Pensar a Educação Pensar o Brasil – 1822/2022 com o objetivo de disputar os sentidos da educação no espaço público e problematizar o seu lugar no transcorrer dos 200 anos do Brasil independente, jamais podíamos prever que as comemorações do Bicentenário da Independência seriam organizados sob (e por) um governo com marcado matiz neofascista como o que se anuncia para os próximos 4 anos no país.

Na época, tínhamos em mentes as recentes “comemorações” oficiais dos 500 anos do “descobrimento” e como havia sido possível ao governo brasileiro, algumas vezes com o apoio e a participação do governo português, fazer um conjunto expressivo de bobagens, gastando muito dinheiro público e  sem nenhum esforço para incluir a população brasileira na discussão dos múltiplos significados que o “evento 1500” comportava e comporta.

A considerar as propostas do grupo que assume o poder da República em 01 de janeiro de 2019, dentre as quais já se anunciou o volta aos bons tempos da ditadura, as comemorações do Bicentenário serão muito piores do que ocorreu em 2000 com o “descobrimento”. Tende a ser algo que nos fará considerar as comemorações do Sesquicentenário da Independência , em 1972, uma “festa” organizada por amadores, mantendo-se, no entanto, o mesmo sentido militaresco daquele momento e que, sem dúvida, se tentará impor à sociedade brasileira nos próximos 4 anos.

Não fosse por outras, bastaria essa razão para que nos mobilizássemos para organizar uma programação alternativa e popular para 2022. Ancorada nas instituições da sociedade civil e nos diversos movimentos democráticos que compõem a cena político-cultural brasileira, tal programação poderia ser não apenas um contraponto ao que virá do poder executivo, mas também um grande movimento educativo, popular, alternativo, retomando, mais do que a carga semântica, a carga simbólica destes termos. Disseminados e amplamente mobilizados nas décadas de 1960, 1970 e 1980, o “alternativo” e o “popular” identificavam boa parte daquilo que de melhor se produziu naqueles tempos como a resistência e nomeavam a  incrível capacidade de nossas gentes para criar práticas e movimentos disruptivos em tempos autoritários.

Talvez, mais do que falar em “programação” para 2022 devêssemos pensar em “programações” heterogêneas, multifacetadas, multiculturais, multiterritoriais.  Pode-se pensar em eventos de todas as naturezas. No entanto, seria bom se conseguíssemos minimamente, no campo democrático, definir algumas linhas de força para essas programações.

Deverão ser, certamente, parte da resistência democrática ao governo autoritário que se anuncia, mas, muito mais do que isto, deveria ser um conjunto de ações de resistência à cultura autoritária que o autorizou. Neste sentido, poderia ser um grande movimento político-cultural-educativo de discussão de nosso passado, de  nossas histórias e de nossas memórias,  e dos modos como os mesmos vêm sendo (e serão) mobilizados  para justificar e autorizar as ações nefastas como as pretendidas por Bolsonaro e pelos grupos que o apoiam no Brasil e no exterior.

Apesar da capitulação de muitas instituições que outrora fizeram parte do campo democrático brasileiro,  há, hoje,  um conjunto muito maior e expressivo de movimentos e  instituições, de coletivos os mais diversos,  que são capazes de dar sustentação e capilaridade a propostas como esta. Precisamos aproveitar isso.

Para citar assuntos onde tenho maior conhecimento, penso que, no campo da ciência e tecnologia, instituições como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência,  o Fórum de Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas  e os Sindicatos de Professores(as), dentre outras,  poderiam pensar em programações que envolvessem as universidades, seus cursos de graduação e de pós-graduação,  numa  ampla discussão sobre o tema. No campo da educação básica, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, os Sindicatos dos Trabalhadores em Educação Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação,  a Campanha Nacional pelo Direito a Educação, para citar algumas das instituições que aí atuam,  poderiam articular suas diversas redes para pensar em programações específicas tendo em vista 2022.

Penso, por exemplo, como seria interessante se as dezenas de editoras universitárias do Brasil publicassem, em conjunto e dentro da capacidade de cada uma,  um “selo”, uma coleção de livros a respeito das várias dimensões do Bicentenário. Melhor ainda, é se conseguissem pensar em livros dirigidos aos vários públicos, e não apenas ao universitário.

2022 já começou!  E começou da pior forma possível! E não estou me referindo ao fato de que as ações de muita gente no campo da política já levam em conta a próxima eleição presidencial. 2022 já começou,  e da pior forma possível,  porque o novo governo que assume em 01 de janeiro vai fazer de tudo para convencer à população de sua versão burlesca, autoritária e militarista a respeito não apenas de 1822 e 2022, mas dos 200 anos de história do Brasil como país  independente. E contra isso devemos nos mobilizar e lutar!

Imagens:

(1822) – “Independência ou Morte” – Pedro Américo (1822) – Acervo do Museu Paulista

(1922) – Selo Comemorativo do Centenário da Independência (1922)

Imagem de Destaque: Monumento do Impiranga (São Paulo/SP) – Foto: Heloísa Ballarini / SECOM

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