A democracia tutelada pela farda

Por Luciano Mendes

Nestes últimos dias o General da Reserva, Paulo Chagas, colocou em dúvida uma vitória de Haddad sem que haja fraudes, sem que o TSE, mais uma vez, se pronuncie. Além disso, e bem ao estilo da “família bolsonoro”, o General incita a “cólera das multidões” em caso de uma vitória do candidato petista. Disse ele lá em seu Twitter:

“Seria muito triste ver a verdade ser superada pela mentira e a Nação ser comandada de dentro da cadeia por Lula da Silva.
O desastre se completaria quando a Cólera das Multidões tomasse as ruas diante da ousadia de fazê-lo subir a rampa do Palácio do Planalto!”

A propósito disso, fiquei pensando lá nos idos de 1983/84 quando do movimento das Diretas Já. Ali, dupla derrota: tivemos eleições indiretas e eleição do ex-presidente da Arena, partido da ditadura, José Sarney, como vice de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral. Resultado: o nosso primeiro presidente civil depois da ditadura nada mais era do que a principal liderança justamente da ditadura!

O movimento das Diretas Já desaguou no movimento pela Constituinte, que, a despeito de uma grande movimentação pelo país todo, resultou numa Constituição que manteve a tutela militar à democracia.

Os nossos acordos pelo alto, a ação sempre muito esperta e com uma boa dose de covardia de nossas elites políticas, vem desde pelo menos Independência. Não nos esqueçamos de que o “artífice de nossa Independência” foi ninguém menos do que o herdeiro do trono português! E a República resultou de um golpe de Estado dado pelos militares!

Com uma tradição dessas, em que os “espertos de sempre” se unem aos militares para evitar qualquer tipo de avanço democrático ou de combate às desigualdades, não é de se estranhar o que temos visto: a subserviências das instituições republicanas às espertezas dos golpistas e a tutela militar à frágil democracia brasileira. É chegada a hora, de romper com este “destino das coisas”. Uma verdadeira democracia não pode ser tutelada por agentes fardados! Que o nosso voto no Haddad possa ser a explicitação de um movimento nessa direção e para evitar que a história se repita como tragédia.

Imagem de destaque: @rafaelabiazi

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