Os Generais contra a Saúde: educados para a defesa da morte!

Editorial do Jornal Pensar a Educação em Pauta nº 277

As Forças Armadas brasileiras jamais tiveram grande apreço pela democracia. No máximo a toleram, e a muito contra gosto. Nunca é demais lembrar que a nossa República foi proclamada por meio de um Golpe de Estado e, de golpe em golpe, sempre se mantiveram ativas, prontas a defender os latifundiários e o empresariado contra o inimigo interno, o seja, contra o povo brasileiro.

Mesmo a Constituição de 1988, com reconhecidas faces democráticas e inclusivas, não deixou de acolher a pressão antidemocrática e intervencionista das Forças Armadas e a elas reservou o ambíguo papel de “defesa da lei e da ordem”. É com base numa reiterada formação para o autoritarismo e em interpretações espúrias e autoritárias do texto constitucional que, não poucas vezes, nos últimos anos um números expressivo de Generais têm vindo a público defender intervenções militares  e ameaçar a democracia.

Apesar do ímpeto intervencionista e autoritário, as Forças Armadas se mantiveram dentro da ordem democrática nas últimas décadas. Isso se deveu, é importante reconhecer, pelo fato de que pouco foram incomodadas no período pós-ditatorial para que pagassem pelos crimes cometidas ao longo do período em que mandavam caçar, prender, torturar e matar os “inimigos internos” que ousavam defender a democracia.

No entanto, nos últimos anos Generais tem ousado vir a público não apenas para defender a intervenção militar, mas para apoiá-la abertamente, sempre que lhes parece que a ordem e a interpretação das leis não lhes agradam. Com a vitória de Bolsonaro para a Presidência  e de vários de seus apoiadores para os Governos Estaduais, tais Generais e muitos de seus subalternos se viram não apenas reconhecidos, mas também conduzidos ao poder da República.

Há vários levantamentos que indicam existir um grande número de militares ocupando postos chaves dos primeiros escalões do governo Bolsonaro. Para alguns analistas, este número pode chegar a 3.000, indicando uma presença de militares no governo bem acima daquela observada durante a própria ditadura.

O reconhecido desapreço de Bolsonaro pela democracia é acompanhado por um evidente desapreço pela vida da população mais pobre do país. Não bastasse as políticas antidemocráticas por ele defendidas e implementadas ao longo de seu governo,  sua atuação durante a pandemia que assola o país e o mundo demonstra cabalmente o despreparo do Presidente para o exercício do cargo e  o seu evidente investimento no caos e na morte.

A nomeação de um General despreparado para assumir interinamente o Ministério da Saúde, o qual, por sua vez, nomeou outros 9 militares sem nenhuma experiência na área para os postos chaves do ministério, em plena pandemia, mostra que as Forças Aramadas se  mantêm fieis às suas tradições antidemocráticas e contrários aos interesses da maioria da população. ­­Tal interpretação ganha força e impacto social, político e sanitário, com a imediata mudança no protocolo de utilização da Cloroquina contra a Covid-19, acolhendo a tese defendida pelo Presidente Bolsonaro, apesar de a mesma contrariar as orientações da Organização Mundial da Saúde e de cientistas do mundo inteiro, inclusive do Brasil.

É preciso reconhecer que em nossos mais de 130 anos de vida republicana, a manutenção da tradição  antidemocrática e antipopular das forças armadas só foi possível porque ela foi institucionalizada e vem ao encontro dos  anseios de nossas elites, se constituindo num caldo de cultura autoritária em que boa parte de nossa população é continuamente educada. Submetida sistematicamente ao autoritarismo e à violência, também a população demanda a violência e a legitima como forma de governo. É dessa armadilha e desse circulo vicioso que não temos conseguido escapar. E este é, sem dúvida, um grande desafio não apenas para a educação e escola pública, mas para todas as instituições brasileiras.


Imagem de destaque: Marcos Corrêa/PR