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Os Cientistas e a República do Medo

EDITORIAL Nº 261, 14 de novembro de 2019

Desde sua proclamação, no final do século XIX, a República, entre nós, tem sido mais uma obra de ficção, de péssima qualidade, do que uma realidade.  Ao longo desses 130 anos, foram raros os momentos em que essa forma de governo transformou-se, também, em conteúdo da ação do Estado brasileiro objetivando o fortalecimento da coisa pública (res pública) ou da cidadania republicana em seu pleno e lato sentido.

A experiência que vivemos hoje no país, é uma expressão tosca, mas acabada, da vontade do governo das elites políticas e empresarial brasileira ao longo de nossa história. O governo pela violência e pelo medo se impôs entre nós desde a invasão lusitana deste território, numa longa história em que o regime republicano não deixa de ser mera continuidade. Prova disso é a contínua mobilização, tanto ontem como hoje, da força policial e das milícias contra o povo, em defesa do patrimônio e da ordem.

Neste sentido, o governo obscuro e miliciano que tomou de assalto a República nas últimas eleições tem feito do terror e do medo a sua forma de governo. Utilizando da violência, física ou simbólica, presencial ou virtual, os agentes públicos do Governo Federal têm buscado a intimidação ou, no limite, a própria eliminação dos adversários com uma normalidade poucas vezes vista em nossa experiência republicana.

Um dos alvos dessa violência têm sido as cientistas e os cientistas brasileiros das mais diversas áreas do conhecimento. É um ataque que, por um lado, coloca a própria ciência em questão, como já foi aqui denunciado, mas que, por outro, se dirige também contra aqueles que a produzem: os pesquisadores a as pesquisadoras, sobretudo aqueles e aquelas das universidades e institutos públicos.

A perseguição ocorre não apenas por meio de ações de governo que levam as ciências ao descrédito, mas também por meio de exposição pública, descontextualizada e ridicularizada, de pesquisas específicas e daqueles que as realizam; da publicação de dados incorretos e distorcidos sobre o financiamento público da pesquisa no país; da definição de critérios ideológicos para o apoio público a eventos acadêmicos e a projetos de pesquisa.

Já se observa que essa perseguição tem impactado importantes setores e agentes da comunidade científica brasileira de forma nefasta.Desde pelo menos o final do ano passado, observa-se um movimento de dirigentes de instituições federais saindo das redes sociais e dos debates e manifestações públicas, ou se auto censurando, com receio da perseguição do MEC às suas instituições.  Do mesmo modo, pesquisadores e pesquisadoras de várias áreas têm se auto censurado, ou deixado as redes sociais e as manifestações públicas, com medo de que as agências de fomento não aprovem seus projetos de pesquisa.

No entanto, neste momento crucial de nossa história, não podemos dar ao bolsonarismo aquilo que ele mais quer dos cientistas e pesquisadores: o medo, o silêncio, a auto censura e o adoecimento.  Precisamos conversar sobre isso. É necessário coletivizar e institucionalizar as estratégias de enfrentamento a esse governo obscuro e violento. A nossa mobilização política, em nossas instituições e demais  espaços públicos,  é a única saída que temos. Hoje, mais do que nunca, é preciso REPUBLICANIZAR A REPÚBLICA!