Minorias e territórios: ocupações

ocupacao

Por Renata Lima Aspis (FaE – UFMG)

– toc, toc, toc!

Pausa. Ninguém responde.

– toctoctoc, toc, toc (bem mais vigoroso).

– Tá ocupado! –  uma voz certeira responde.

Está ocupado pelo “povo por vir”, está ocupado por aqueles que não fazem prévias planilhas no Excel, está ocupado por aqueles que não leram Gramsci e desavisadamente tomaram o lugar, foram lá e fizeram. Está ocupado por aqueles que não vieram levar a consciência crítica para ninguém, aqueles que, apesar da tenra idade e, talvez por isso mesmo, têm a percepção clara do intolerável. E não temem. Sem temer, ocupam.

Ocupação é território. Ocupação é território, não é terreno. O território é determinado pela presença do corpo. Isto é, o que faz o território, no caso dos animais, por exemplo, é o fato de o animal estar fisicamente lá e, com seu corpo, com seus fluidos, marcar uma área, determinando-a como sua: seu território. No entanto, não há território sem um vetor de saída. A delimitação do território não é limitante, e só será uma delimitação e uma constituição de território, se não prender. Os territórios têm limites não fixos, abertos. Territórios são móveis.

Ocupar é questão de onde se coloca o corpo. Onde você coloca seu corpo. Na sala ou na rua? Na aula ou na assembleia? Na praça ou em casa? Na dimensão física, não se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo assim como dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. O corpo das aulas e o corpo das manifestações, o corpo do cotidiano acadêmico e o corpo dos tocadores de tambor, chamando para a rua. É necessário que se decida. A criação de territórios é feita na imanência, no aqui e agora, sem maiores delongas, agir.

Os possíveis devem ser criados, nos acontecimentos e esse movimento tem duas dimensões: uma de signos, que se dá na sua enunciação, que se expressa pela linguagem, pela fala e pensamento, mas que não acontece sem que se efetue nos corpos, sua segunda dimensão. É necessário que o que se enuncia, se atualize nas ações. O que temos vivido, nessa civilização greco-romana, judaico-cristã, euro-americana, o que temos vivido aqui, desde a Modernidade, é um colossal abismo e ainda crescente, entre o que se diz e o que se faz. O que se diz, o que se pensa, o que se prega, o que se publica, se reza, se anuncia e enuncia e efetivamente o modo como se age. Tornou-se norma a ausência de correspondência necessária entre o que se fala e o que se faz. O homem moderno, ainda hoje, se orgulha de suas palavras, enaltece os discursos e imagens que cria para representar a realidade ao mesmo tempo que se exime completamente da responsabilidade sobre o lugar que seu corpo está ocupando. Na poltrona ou na canga? Na sala de aula ou na cátedra?

Foucault pensa que talvez o problema filosófico mais premente, seja a questão do tempo presente e daquilo que somos neste exato momento.

No entanto nosso tempo presente agora está bastante confuso e a gente quando está no meio do tornado, tem poucas condições de entender o que se passa. A meu ver, nossos dias atuais são difíceis de entender não apenas pela intensidade e alta velocidade em que as coisas estão se dando, mas principalmente porque essas coisas são coisas novas. E por isso temos que ter muito cuidado, porque a tentativa de encaixar um acontecimento nas velhas categorias de análise, forçá-lo a caber nas fôrmas, cortar pedaços, distorcer, apertar para caber, o destrói.  Não temos novas categorias para entender o que está se passando, mas podemos tentar, podemos e desejamos tentar criar novas formas de pensar. Isto requer muita atenção: não se trata de pensar outras coisas da mesma maneira, mas de pensar de outras maneiras.

Deleuze e Guattari chamam a atenção para o fato de que normalmente se faz críticas aos conteúdos de pensamentos, às ideologias. No entanto apontam a necessidade de se verificar as formas de pensamento, mais do que seus conteúdos, tentar fazer um estudo das imagens que recobrem todo o pensamento como uma forma a priori, uma fôrma, que seria uma forma-Estado, desenvolvida no pensamento. Esse estudo seria aquilo que chamam de noologia (noos ou nous, em grego é pensamento, intelecção, intuição, entendimento). Escapar das velhas formas de pensar e de sentir e desejar – a lógica do capital, as exigências do mercado, o legado da tradição, o “normal”, o que todo mundo faz, os apelos das imagens da mídia, os desejos inventados pelas novas tecnologias…a preguiça e a covardia -, escapar das velhas formas de pensar é um grande desafio, pois quantas vezes alguém pode tentar lutar contra o machismo de forma machista, por exemplo, ou lutar contra a opressão, oprimindo e assim por diante? Como criar novas formas de pensar? Hoje é urgente esse exercício, pois o que está nos passando é novo e exige novas formas de pensar, novas formas de sentir e de perceber, novas formas de colocarmos nossos corpos em movimento. Como resistir? Como. Trata-se de perguntar sobre as formas possíveis. Não aquelas que estão dispostas, estas já não nos servem. Não queremos distorcer os acontecimentos para que caibam nas nossas velhas formas de pensar. Como criar outras categorias? Categorias que não sejam a redução de todos os possíveis à identidades fixas, de todos os compossíveis a serem criados, à lógica binária, excludente? Categorias móveis, também elas? Essa, talvez, seja a tarefa mais urgente para os que querem pensar: encontrar novas formas.

Novas coisas estão acontecendo. A ação do qualquer um, milhões, saindo às ruas para expressar seus desejos, no mundo todo, primavera árabe, occupy, indignados, há quase uma década, desde 2008, pipocando no planeta, isso aqui no Brasil, agora, desde 2013, mais agora, a ação dos secundaristas, os mais jovens, as ocupações de hoje, escolas, universidades. O que é isso? O que está acontecendo? É urgente a criação de novas formas de pensar, novas formas de sentir, de perceber, mover-se, desejar…O que está circulando por aí são outros desejos, desejos não capturados pelo semiocapitalismo, o capitalismo a que tudo já atribui um sentido, usurpando dos possíveis seres humanos a sua humanidade: criar sentidos para a vida. Criar seus valores e não apenas escolher entre alternativas previamente determinadas: decidir! (Isso é Nietzsche).

Há uma bonita definição de minoria e maioria, que Deleuze faz, com Guattari, embaralhando a matemática. As minorias e as maiorias não se distinguem pelo número, não se trata de quantidade. As minorias podem ser mais numerosas: as mulheres, os negros, o povo… A maioria pode ser muito menos numerosa do que as minorias. A maioria se define pelo modelo ao qual se deve estar conforme, “por exemplo, o europeu médio adulto macho habitante das cidades”. Por seu lado, minorias não têm modelo, ali tudo é processo, é movimento, devir. Sua potência vem daquilo que elas criam e que passa mais ou menos para o modelo, mas que não depende dele.

O sentido da vida que é criado pelo semiocapitalismo hoje em dia, é um só: dinheiro, conforto, prestígio/reconhecimento social, prazer constante, magreza, cabelo liso…. O aparelho de Estado, o aparelho de moer carne humana, de biopoliticamente fabricar sempre mais um tijolo do muro, quer extinguir os modos menores de viver, de inventar a vida, de criar a vida como uma obra de arte, como se queira, sem pressupostos, sem a obrigatoriedade de continuidade com as lógicas estabelecidas, as religiões, as opiniões blábláblá da TV, teletela, das redes sociais, do meu aparelho eletrônico de controle pessoal, que apita no meu bolso…É possível escapar aos modelos-fôrmas e criar novas formas. É isto o que está acontecendo hoje. É o ocaso de uma civilização, é lento, não vamos ver isso acabar, mas estamos já todos imersos nessa mudança. E ela exige de cada um que decida como vai posicionar seu corpo.

Somos contra a naturalização da inferioridade daquele que escapa ao modelo, as mulheres, os negros, as crianças, os loucos, os LGBT’s todos (os mil sexos!), os pobres, os “pardos”, o povo. Chega de engolir que essa é nossa essência e que o máximo que se pode fazer é se esforçar para chegar o mais perto que se puder do modelo. O modelo. Modelo único. Vida única, a qual nunca conseguimos chegar completamente e nunca conseguiremos e toda energia dispendida nesse esforço equivocado de alcançar o modelo dessa maioria de pênis branco, classe média, estudado, cidadão cis hetero, que passa no seu carrão de janelas de vidros escuros, toda essa energia em nos branquearmos, em nos europeizarmos, nos machistarmos, essa energia nos desgasta, nos nega e gera mais e mais poder para o modelo. Por isso resistir não é opor-se. Temos que prestar muita atenção ao problematizar a colonização, propondo uma descolonização. A resistência não pode existir apenas em função da negação de algo. Resistir não é opor-se, resistir é criar. Resistência é criação, é movimento insistente de re-existir. Existir é criar sentido para a vida, “criação de valores”, ao modo de Nietzsche. Resistência é movimento constante, é criação constante, que se retoma a cada captura, re-existência, insistência em existir, em criar novas formas de vida.

Voltando a Foucault: talvez ainda mais importante do que descobrir o que somos, recusar o que somos, recusar essa individualidade que nos foi imposta há vários séculos. Promover novas formas de subjetividade.

E é isso que esses movimentos de ocupação, hoje, estão provocando: eles nos apontam o esgotamento do modelo, o esgotamento da aceitação em negar-se a si mesmo como possível humano: que cria. Cria sua vida, como desejar e como puder, em movimento constante.

O intolerável é intolerável. Não se pode mais suportar. Então, larga-se isso que pesa, para que se espatife no chão. Ninguém me representa. Eu estou presente. Eu vou lá e ocupo. Ocupo a rua, ocupo a escola, a assembleia legislativa, a faculdade, a reitoria, o Minc, ocupo a democracia. Ninguém me representa. É o mapa em escala 1:1. Eu estou lá. O mapa tem o meu tamanho. O mapa sou eu, sem representação.

Ocupar é criar território. Só é um território porque está ocupado com os corpos, e é vivo. Não é “terra improdutiva”, não é propriedade cercada, não está parado. É território porque tem gente dentro, ocupando e inventando a vida, a vida que ainda está por vir, imprevisível, porque ainda não foi inventada. O qualquer um pode fazer isso. Isso é micropolítica. Política menor, política das minorias. Isso é criação de zonas autônomas temporárias, ao modo de Hakin Bey. A criação de “linhas de fuga”, pelas quais se escapa, inventando…novas subjetividades, novas formas de vida. O qualquer um faz isso.

Não desejamos mais a “Revolução”, sonho lindo, de séculos passados, do século XX, que passou. Sonho de outro mundo, um outro mundo único, para colocar no lugar do deposto, para se tomar o lugar do Estado, ou isto ou aquilo. Contra as crenças no movimento dialético da luta de classes que impulsiona a história, os jovens vão lá e criam territórios de mundos por vir, qualquer um, se conectando de formas imprevisíveis. Sem oposição termo a termo, escapar e criar. Não desejamos mais a revolução, somos a insurreição. Levantamos, estamos aqui. Ocupamos. E nossos desejos estão espalhados no espaço e no tempo. Insistir em existir. Ocupar é resistir. Re-existir!

Belo Horizonte, outubro 2016