São Paulo - Polícia Militar Entrou No Centro Paula Souza, Ocupado Por Estudantes Desde A última Quinta-feira (28). A Justiça Concedeu Liminar Para Reintegração De Posse Do Prédio (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Escola: lugar de polícia ou lugar de política?

EDITORIAL Nº233, 17 DE ABRIL DE 2019

O Presidente Bolsonaro e foi deputado federal por 28 anos e hoje ocupa o posto mais alto do governo da República. Ou seja, viveu boa parte da vida na política e nela encontrou colocação para três de seus filhos. Imaginava-se que um sujeito com tal trajetória não apenas valorizasse a política, mas também que incentivasse os jovens a dela participar. Mas não é isso que ele faz. Em mais de uma ocasião disse que a escola não deve incentivar a participação política dos alunos e sim prepará-los para o trabalho.

A Ministra Damares é pastora e, hoje, ocupa um importante posto na explanada dos ministérios e tem como ardorosas defensoras várias deputadas federais. Dela era de se esperar, pois, que valorizasse a participação das mulheres no espaço público e, sobretudo, na política. Mas não é isso que ela faz. Toda a sua pregação no ministério é para que as mulheres voltem para suas casas, sejam submissas aos maridos, não participem da política e que tirem a crianças da escola pois, a melhor educação é aquela que é dada no lar.

Tanto em Bolsonaro quanto em Damares parece prevalecer a visão de que a política é digna de ser ocupado por “mim” e pelos “meus filhos” ou por mim e por mulheres iguais a mim,  mas não pelos “filhos dos outros” e pelas “outras” mulheres.  Para estes e estas restaria o trabalho precarizado, o subemprego ou o desemprego ou, no máximo, o trabalho no lar, sob as ordens do marido.

Esse movimento de deslegitimação da política tem como contraface a defesa da militarização das instituições escolares. E, como sabemos, no fim da política se inicia o reino do violência e da barbárie.  Por isso, não é por acaso que, no mesmo movimento, se faça uma grande demanda por mais e mais violência como solução da violência e a legitimação da eliminação do outro quando este é considerado inimigo real ou potencial.

Não bastasse a defesa enfática de que as escolas devem ter um governo militar, os adeptos da violência e da militarização da educação, também se sentem legitimados a invadir as instituições de ensino, intimidar seus alunos e professoras, quando não prendê-las, como ocorreu essa semana em Goiás.

Para se combater as práticas autoritárias e as demandas por violência como solução para os conflitos inerentes à vida democrática, os quais são exacerbados em sociedades de grandes desigualdades como a brasileira, a solução não é banir a escola ou a política do seu interior. A solução é mais escolas e mais política. Precisamos de mais e mais escolas bem equipadas, com professores bem pagos e bem preparados, para que estes possam acolher bem às novas gerações que chegam ao mundo.

Acolher as novas gerações no mundo e na escola é, já, um ato político dos mais fundamentais da república e da vida social. E ele deve ser completado com a inserção e participação dos alunos e das alunas na vida política. São deles e delas o futuro da política e da sociedade que estamos construindo. E, neste sentido, o futuro já chegou, e bani-lo da política e educá-lo pela polícia é defender a lei do mais forte, o autoritarismo, a violência e a barbárie. Se as pessoas que ocupam os cargos mais altos da República não dignificam a política, é fundamental que todos nós o façamos, a começar pelos professores e professoras, pelas alunas e alunos. A escola, mais do que nunca, deve ser o legítimo espaço da política e não da polícia.