Foto: Pedro Cabral

Escola e Sociedade em Tempos de Crise

Editorial da Edição 271 do Jornal Pensar a Educação em Pauta

Na crise sanitária, social e econômica que vivemos devido à pandemia decorrente do novo coronavirus, um das áreas mais afetadas é, sem dúvida, a educação escolar. No mundo inteiro, são centenas de milhões de crianças, adolescentes e jovens que, com o fechamento das escolas, obrigam as famílias a estabelecerem novas rotinas e a reinventarem as formas de cuidar e educa-las no ambiente doméstico.

Essa nova realidade, por mais rápida e passageira que seja, considerando o transcurso de uma vida, está colocando, para todo mundo, um conjunto expressivo de questões acerca das dinâmicas familiares, o cuidado e a educação das novas gerações. Não são poucos os pais e mães que se mostram, ou se sentem, absolutamente despreparados para lidar com a própria prole, assim como não são poucas as empresas do ramo educacional que vêm nessa crise uma oportunidade de aumentar seus negócios com a venda de produtos educacionais para o lar, do mesmo modo, não são poucos os grupos políticos que se aproveitam do momento para reforçar suas convicções e propostas políticas em defesa da educação doméstica.

A crise permite que, societariamente, pensemos nas diversificadas funções cumpridas pela escola na sociedade contemporânea. Muito longe que servir tão somente como lugar de instrução e/ou aprendizado intelectual, a escola contemporânea desempenha uma função de guarda e cuidado fundamental. Os novos arranjos sociais, culturais, políticos e econômicos estabelecidos nas modernas sociedades industriais, a partir do século XVII, e pós industriais contemporâneas só foram possíveis pela emergência e atuação, nos mesmos períodos, da escola, cumprindo papeis que, anteriormente, eram cumpridos pela família, pela igreja, pela vizinhança e, é claro, pelo trabalho no ambiente doméstico ou peridoméstico.

Se as funções de formação intelectual, de guarda e de cuidado exercidas pela escola são fundamentais, não menos importantes são aquelas relacionadas à formação para o exercício da cidadania, ou seja, à educação política das novas gerações. A escola moderna, sobretudo a escola pública, foi inventada com o intuito de retirar a criança do ambiente doméstico e lança-la, paulatinamente, no mundo público, no mundo da política. Nesse mundo, marcado pela diversidade e pelos conflitos de valores e opiniões, as novas gerações se preparariam para lidar de forma não violenta com os contrastes, com os conflitos e sociabilidades inerentes à vida social e política contemporânea. Rever o papel e o lugar da escola no mundo social, implicaria, pois, numa revisão da organização do conjunto da vida social, aí incluídas as formas de organizar o trabalho, a política e as demais relações sociais.

Nessa perspectiva, não é uma disfunção o fato de que boa parte dos pais e mães não estejam preparada para a educação de seus filhos e filhas no ambiente doméstico. No caso do Brasil, ainda mais: a maior parte de nossas famílias é chefiada por homens e mulheres que não lograram completar o ensino fundamental, não tendo, portanto, nem experiência nem conhecimentos ajudar aos filhos e filhas nos exercícios e tarefas escolares. A isso se soma, é claro, as condições de vida, moradia e trabalho, que precarizam ainda mais o acompanhamento da educação escolar da prole.

Por tudo isso, é uma pena que, neste momento de crise sanitária, mais do que isso, de projeto societário, pela qual estamos passando, as escolas e as autoridades escolares não estejam pensando em outra coisa a não ser as formas como vão cumprir os cronogramas e os planos de estudo, que os grupos empresariais queiram ganhar mais dinheiro com a crise e os grupos políticos conservadores queiram levar à frente suas pautas de confinamento das crianças e das mulheres no ambiente doméstico.

O que está em jogo, hoje, é muito mais do que isto do que cumprir a contento as tarefas escolares. O que buscamos é a proteção à vida e a educação para o cuidado com todos os seres vivos que habitam o planeta, inclusive os não humanos, aos quais nossa sobrevivência está umbilicalmente ligada. A crise aponta para o esgotamento do modelo societário que construímos e não será a reiteração do mesmo que nos fará pensar, sentir e agir diferentemente.


Imagem de destaque: Pedro Cabral