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As respostas às demandas por violência

Editorial do Jornal Pensar a Educação Em Pauta nº228, 15 de março de 2019.

Um ataque contra a vida de estudantes e profissionais da educação, como o desferido esta semana em Suzano (SP), nos comove e mobiliza a todos. O drama das famílias e da comunidade escolar envolvidas é enorme e merece todo nosso respeito e solidariedade. A tragédia suspende nossos afazeres cotidianos e nos levam a fazer interrogações sobre a escola e a sociedade da qual a instituição faz parte.

A violência que ocorre no ambiente escolar e em seu entorno é objeto de estudo e discussão de vários grupos de professores, pesquisadores e  alunos, dos quais resultaram uma considerável bibliografia e muitas sugestões de políticas e práticas para o enfrentamento do problema. No entanto, tragédias como as ocorridas no dia 13 último extrapolam, em intensidade e impacto, as dimensões da violência escolar anteriormente experienciada, estudada e debatida.

Há que se considerar, a respeito do ocorrido, que, na sociedade brasileira, a violência tem sido, ao longo de nossa história, demandada e mobilizada como um modo cotidiano de resolver os conflitos.  Sob o arrepio da lei ou, em boa parte, sob a tutela do Estado, há um grande investimento de parte significativa de nossas elites econômica e políticas na utilização da morte,  do extermínio dos adversários como forma de fazer valer os seus interesses. Mas há, sempre houve, uma grande legitimidade da violência no cotidiano da casa e no seu entorno, nas relações domésticas e familiares, em que as grandes vítimas são as crianças e as mulheres.

Mas, felizmente, mesmo em uma sociedade atravessada de alto a baixo pelo culto e pela prática da violência e em que aos “outros” – mulheres, crianças, negros, índios, pobres… –, sempre foi ofertada uma “pedagogia da violência”, mesmo nesta sociedade, tragédias como as de Suzano chocam.

Chocam pela brutalidade, pela falta de sentido, pelas vidas interrompidas. Chocam pelos dramas familiares e comunitários que estabelecem. Chocam pela visibilidade da violência e de suas consequências imediatas. Chocam pelo armamento utilizado e apresentado pelos assassinos. Chocam…

Chocam,  também, porque em sociedades altamente escolarizadas como as que vivemos na contemporaneidade, a instituição escolar é representada no imaginário coletivo como um lugar seguro de guarda e educação das novas gerações. A morte de crianças e adolescentes na escola rompe, pois, com esta idealização de uma escola que estaria a salva da enorme violência que assola nosso país.

Mas a tragédia choca e mobiliza parte significativa da sociedade brasileira porque ela parece dialogar, conjunturalmente, com uma demanda e um investimento apresentados pela família Bolsonaro e pelos grupos que o apoiam. Não é sem sentido ou ilegítimo  considerar que o ocorrido na Escola  Estadual Raul Brasil esta semana,  seja uma resposta à demanda de violência – e de mais armamento – apresentada publicamente pelo hoje Presidente Bolsonaro ao longo de sua vida e, mais recentemente, em sua campanha eleitoral.

Ou seja, vivemos um tempo em que a violência amplamente institucionalizada e legitimada como modo de ação “contra os outros”, encontra uma celebração pública e cotidiana nas falas e imagens do Presidente da República, de seus Ministros e Ministras e seus apoiadores.  São tempos sombrios em que as tragédias se avolumam, a violência campeia, as milícias tomam conta do Estado, a ignorância é elogiada e a vida dos “outros” é  desvalorizada.

Contra este estado de coisa, a solidariedade pessoale de pequenos grupos é fundamental – ninguém solta a mão de ninguém! –, mas é insuficiente. Aumentar e fortalecer a ação política coletiva e democrática contras as desigualdades e todas as formas de violência e  a favor das diversidades e de maior igualdade é imperativo.

Mais do que um caso em meio a tanta violência, a tragédia ocorrida na escola paulista deveria nos fazer perguntar, societariamente, pelos caminhos trilhados para chegarmos até aqui e nos fazer tomar consciência sobre a imperiosa necessidade de abandonarmos imediatamente o modelo de Estado e de Nação que vem sendo defendido e implementado pelos milicianos que hoje ocupam o poder da República.