EDITORIAL

Polícia é a resposta à falta de Política!

Editorial do Jornal Pensar a Educação em pauta nº 195

Há poucas semanas nos posicionamos aqui neste mesmo espaço contra a utilização cada vez mais frequente da violência como forma de educação das lideranças populares: violenta-se e, no limite, extermina-se as lideranças atuais para que as novas possíveis lideranças vivam sob o signo do medo.

Infelizmente, a escandalosa utilização da violência pelo aparato militar contra as lideranças populares e a crescente criminalização das manifestações públicas continua e autoriza que outros grupos façam o mesmo.

A vergonhosa investida da Política Militar de Minas Gerais contra as professoras e as crianças das instituições de educação infantil em Belo Horizonte no último dia 23, faz parte desse recrudescimento das práticas de violência física e simbólica que acontece no país. As forças que deveriam proteger a cidadania e o espaço público democrático, são mobilizadas contra quem luta por legítimos direitos. Não bastasse o uso injustificado da violência policial, o prefeito Alexandre Kalil ainda responsabilizou as profissionais que lá estavam pela atitude da PMMG, pois, para ele, o salário pago a elas é justo por ser, ainda de acordo com ele – e com o apoio de sua secretária de educação, professora Ângela Dalben – mais que o dobro do que acusam seus contra-cheques.

Os acontecimentos de Belo Horizonte demonstram, além de uma polícia totalmente desaparelhada para o regime democrático e para o reconhecimento dos direitos da cidadania, que a Prefeitura do Município insiste em desconsiderar que, no caso da carreira das professoras de educação infantil, continua agindo na ilegalidade. A dupla carreira da educação em Belo Horizonte é ilícita, vergonhosa e vem se mantendo há anos. Se a educação infantil é a primeira etapa da educação básica, não faz sentido termos carreiras distintas para educação infantil e ensino fundamental.

A prefeitura, por meio do Prefeito, da Secretaria Municipal de Educação e seus prepostos mentem, há anos, sobre o salário e as funções das professoras que atuam na educação infantil. Não bastasse Belo Horizonte ser uma das últimas capitais brasileiras a instituir uma rede própria de educação infantil – o que ocorreu apenas no início do século XIX – ao instituí-la, para pagar menos, apresentou o argumento esdrúxulo de que o trabalho das professoras da educação infantil era de menor importância e mais voltado para a “recreação”, o que não o caracterizaria propriamente como educação, como é aquele das professoras do ensino fundamental. E assim continua tratando até hoje!

 A luta das professoras da educação infantil de Belo Horizonte, assim como das famílias que as apoiam, é uma luta de todos nós. Enquanto continuarmos pensando que por se tratar de crianças pequenas o trabalho é menos complexo e importante do que aquele realizado nos outros níveis e modalidades da educação, será difícil avançarmos de fato para a educação de qualidade que todas as nossas crianças merecem.

O argumento amplamente mobilizado pela prefeitura ao longo dos últimos dias de que o atendimento às reivindicações da categoria é, agora, impossível porque faltam recursos, não é aceitável. Em momentos anteriores, quando a situação financeira do município e do país era outra, o problema também não foi resolvido. É mais do que a hora, aqui e no país como um todo, de não aceitarmos a subalternização dos direitos dos trabalhadores da educação à disponibilidade financeira do Estado. Urge resolver o problema que se arrasta há muito anos. É por isso também que é urgente hipotecarmos todo nosso apoio às professoras da educação infantil de Belo Horizonte e às famílias que as apoiam!

 

Foto destaque: CUT-MG