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Sofrimento mental dos(as) alunos(as) nas universidades

Editorial do Jornal Pensar a Educação em Pauta nº194

Precisamos falar sobre isso!

A universidade quase sempre foi vista como um lugar de encontro do melhor da tradição intelectual e, ao mesmo tempo, com as fronteiras do conhecimento. Entrar para a universidade seria estar num lugar de convívio e de liberdade, de encontro com as diversidades, de abertura de horizontes e de construção de expectativas mais alargadas. E, certamente, para parte significativa dos alunos e das alunas a universidade tem significado isso. No entanto, para outros(as) não!

Recentemente a Associação Nacional de Pós Graduação – ANPG – publicou Nota de Pesar pelo falecimento de uma aluna da pós graduação observando que: “Diariamente temos sido expostos a situações que são vistas como naturais pelo meio acadêmico, como falta de recursos para pesquisa e sobrevivência, pressão para produção cientifica em massa, carga excessiva de trabalho e diversos tipos de assédio que tem levado ao adoecimento mental do pós-graduando. O que faz com que esse profissional que dedica parte de sua vida para pesquisa e o desenvolvimento nacional tenha que interromper sua formação acadêmica e, consequente, evadir dos cursos de pós-graduação, e por vezes, a tirar sua vida.”

Essa nota, assim como muitas outras manifestações da própria ANPG, de sociedades científicas e de pesquisadores, dão visibilidade a um fenômeno crescente entre os(as) discentes da graduação e da pós graduação das universidades brasileiras: o adoecimento mental que os acomete. No entanto, ao considerar as manifestações e estudos relativos também aos(às) docentes, entre estes(as) a realidade não parece ser muito diferente.

Pode-se argumentar, e talvez com uma certa razão, que o problema não está vinculado apenas ás universidades e faz parte da chamada “vida moderna”. De um modo geral, no conjunto da população parece haver um expressivo aumento do adoecimento mental devido a fatores tão diversos quanto, por exemplo, a deteriorização das condições de vida e das relações interpessoais, a desterritorialização de amplos contingentes populacionais e a promessa de felicidade por meio do consumo.

No entanto, se bem que isso seja verdade, não exime as instituições de ensino superior e de pós-graduação de enfrentarem o problema naquilo que o fenômeno tem de específico em seu interior. O fato, por exemplo, de ao longo de meses e anos, um grande número de pessoas – em um momento muito particular de suas vidas, a juventude – se encontre diariamente neste espaço, dá visibilidade a certos fenômenos, – menos visíveis em outras instituições, mesmo que existentes nelas também – como o adoecimento, ainda que a origem do problema não seja, necessariamente, na própria universidade.

Mas, não podemos negligenciar que os(as) alunos(as) e os(as) docentes, bem como os(as) pesquisadores(as) que se dedicam a estudar o tema, estão dizendo que a universidade está criando situações potencializadoras do sofrimento mental.  Alguma delas foram explicitadas na citada nota da ANPG. No entanto, não menos graves, são as denúncias dos(as) alunos(as) a respeito da contínua contribuição das instituições e dos docentes na criação de condições favoráveis ao adoecimento dos(as) discentes. O racismo, o sexismo, a homofobia, a exacerbação da competição e a exaltação da meritocracia por parte de um grupo expressivo de docentes têm sido sistematicamente denunciados nas universidades brasileiras.

Seja porque tenha ganhado cada vez mais canais de expressão, seja porque as pessoas venham se sentindo mais seguras para denunciar, seja, ainda, porque o fenômeno esteja crescendo, o fato é que ele se impõe definitivamente à pauta dos gestores das instituições de ensino superior, sobretudo naquelas dedicadas também à pesquisa. Uma hipótese que, sem excluir outras, poderia ser considerada é que parte significativa dos(as) docentes das universidade públicas são formados como pesquisadores desde a graduação e estão muito pouco preparados para o exercício da docência junto às juventudes cada vez mais diversas que chegam a essas instituições. Outra, mais evidente, é que muitos(as) dos(as) docentes não deixam em casa o seu racismo, sua homofobia, seu sexismo e sua falta de cuidado com o outro quando vão dar aula e, perversamente, utilizam a poder que têm na sala de aula para reafirmar isso.

Mas certamente o problema não diz respeito apenas aos pesquisadores despreparados para a docência. Como já se insinuou acima, a crescente desterritorialização dos alunos que chegam às universidade, a dificuldade dos(as) jovens mais pobres em lidar com altas expectativas dos familiares quando entram no ensino superior, a falta de estrutura de apoio nas universidades, as políticas de cortes de verbas e de aumento da competitividade são fatores que potencializam o adoecimento físico e mental.

Felizmente no interior da maioria das universidades o problema vem sendo mais falado e tem-se tomado mais consciência dele. É crescente o número de instituições que têm estabelecido políticas, programas e ações para enfrentá-lo. No entanto, a permanência e o aumento do problema demonstram que é preciso mais rapidez e eficácia nessas respostas, inclusive no que se refere aos(às) docentes. É preciso, também, rever as estruturas e as políticas institucionais que favorecem o adoecimento ou dificultam as ações de promoção da saúde mental. Caso contrário, as universidades brasileiras, ao invés de serem lugar de alegria e paixão pelo conhecimento e cultura, sejam um lugar cada vez mais de sofrimento e dor para aqueles e aquelas que a elas acessam, ainda que a custo de muito esforço pessoal e familiar.