As infâncias e cidades

Na última quinta-feira, 30, o XI Seminário Anual do Pensar a Educação Pensar o Brasil “A universidade e a cidade” encerrou as atividades com a conferência “Os espaços para as crianças na cidade”. Foram apresentados três pontos de vista acerca da relação estabelecida entre a cidade e as infâncias dimensionando a universidade na construção desta relação. Com esta proposta convidamos a professora e pesquisadora Maria Cristina Gouveia (UFMG), Fabíola Farias (Biblioteca Infanto-Juvenil – FMC) e a Débora D’avila (Universidade das Crianças – UFMG).

Débora D’avila iniciou sua fala sobre o projeto Universidade das Crianças. A professora comentou como as memórias de sua infância mediaram a relação com o projeto e com os estudantes. Em suas memórias ora dimensionadas pela relação de pertencimento e liberdade na cidade de Ventania, ora de enclausuramento na cidade de Belo Horizonte, a pesquisadora apontou o cuidado dos adultos compartilhados em Ventania onde a experiência do tempo era de presente e em Belo Horizonte onde a experiência do tempo era de futuro, de aguardo a vida adulta. A descoberta da voz e a autonomia da criança na cidade foi o destaque que deu as suas memórias entrecruzadas na construção da Universidade das Crianças.

Professora Débora D’Ávila. Foto: Pero Cabral

A Universidade das Crianças é uma experiência que tem sido amplamente realizada em universidades pelo mundo, tanto de maneira institucionalizada quanto como projetos. A experiência realiza encontros entre crianças e a comunidade acadêmica, a divulgação de informações sobre a cultura acadêmica, recepcionando a comunidade externa e dando voz as crianças. Isso tudo garantindo o respeito ao tempo e ao desejo de cada dos atores desta relação valorizando suas diversidades e acesso livre. A proposta fuge dos modelos das atividades escolares e das expectativas criadas e depositadas nos alunos, valorizando a escuta e a autonomia das crianças. Estas questões se inserem na proposta do Núcleo de Educação e Comunicação em Ciências da Vida –  NEDUCOM|ICB.

 

Débora D’avila questionou qual o resultado desta aproximação entre as crianças e a universidade. E, qual o modelo ideal de aproximação entre as crianças e a universidade? Ela propõe pensar nos termos da divulgação científica na construção de uma postura de inclusão e abertura da universidade.  Para a Débora D’avila as crianças precisam ter reconhecimento de um grupo relevante ao diálogo.

Fabíola Farias, por sua vez contribuiu com o debate a partir da experiência com a Rede de Bibliotecas Públicas municipais, a partir da Ampliação da rede de bibliotecas e das atividades de promoção da leitura em Belo Horizonte. Ela falou sobre a noção de participação da cultura escrita a partir de um suporte institucional como são as bibliotecas.

Fabíola Farias. Foto Pedro Cabral

As ações que partem do lugar de ação e pertencimento institucional  buscam dimensionar não apenas os serviços bibliotecários, a leitura e a escrita como parte da cultura, mas coloca o livro como foco e principal objeto na mediação com o conhecimento. Fabíola reconhece, com isso, a importância de apresentar a biblioteca como uma instituição pública, assim como sua missão e organização apontando a importância da biblioteca ser reconhecida para além do lugar de pegar livros.

 

Por último, a convidada Cristina Gouvea que trabalha com História da Infância no Núcleo de Pesquisa e Estudos sobre Educação Infantil e Infância (NEPEI) tem estabelecido esforços para pensar a relação das crianças com a cidade. Maria Cristina estabeleceu uma reflexão sobre a infância latino americana nas cidades a partir dos referenciais para a infância estabelecidos na modernidade. Destacou que a America Latina é o continente mais urbanizado onde 9 entre 10 crianças estão vivendo em cidades e buscou identificar singularidades da infância em nosso continente.

A proposta de sua análise se deu no sentido de tensionar pressupostos para pensar a infância que balizam políticas públicas em educação, saúde, etc. E propôs em sua fala pensar para além da transposição de conceitos. Ela questiona: Qual a experiência das crianças nas cidades latino americanas, quais singularidades? Maria Cristina compreende as referências de uma história global e do estabelecimento da modernidade, entretando, reconhece seus impactos distintos e propõe questionar a universalidade de conceitos.

Para pensar em processos Maria Cristina trouxe a ideia reformadora da rua como desvio de lugar e deformação da infância, que deveria estar na escola. Argumento que ajudou a implementar a compulsoriedade da educação escolar e a estabelecer a ideia de Lugar da criança é na escola e na família. E caracterizou esta referência como base da experiência urbana européia e norte americana, diferente dos países sul americanos, por sua vez, baseados na apropriação da rua.

Professora Cristina Golvea. Foto: Pedro Cabral

Nesta experiência Maria Cristina caracteriza a relação com a rua como iniciação na vida social, diluição do poder do adulto e subversão das relações de poder na escola. Além da relação entre ruas e trabalho que caracterizou a formação para a vida adulta. Considerou ainda que a radical e intensa migração para as cidades nas décadas de 1950 – 1960 e suas territorialidades periféricas não implicou a dissolução de características culturais. Ou seja, baseado na vida social que ocorre na rua sem excluir as crianças.

 

Por fim, identificou dois movimentos para se pensar a presença das crianças nas cidades, o primeiro baseado no tempo da escola como antídoto a cidade e o outro na requalificação dos espaços urbanos dentro da cidade. Essa requalificação dos espaços para as crianças é caracterizado pela construção de praças, projetos experimentais, extensão do tempo escolar. Onde o primeiro caracteriza o aprisionamento da criança e o segundo estabelece a escola integral como possibilidade para a circulação da infância na cidade.

Por fim Maria Cristina abriu o debate questionando em que medida a criança se apropria da cidade nestes espaços, seja de escola como antídoto à cidade ou de cidade como extensão da escola? Como uma visão higienizada da escola mediando a relação com a cidade estabelece experiências de circulação das crianças na rua? E defende a ideia de que é necessário que a formação das crianças nas cidades incorporem a cidade em suas contradições de espaço urbano e de cidade.

Confira a conferência na íntegra:

Vanessa Macêdo