Os Rankings E O Ingresso Na Universidade, Texto De Leandro Lente De Andrade

Os rankings e o ingresso na universidade

Nascemos e já somos enumerados. Podemos ser os caçulas, os do meio ou os primogênitos. Esses já possuem uma série de benefícios; é claro, falo dos primogênitos. Afinal, que mérito teria se por desventura do destino não fosse capaz de ser o primeiro espermatozoide a fecundar o óvulo de um casal? Obviamente, também levando em conta o fato de que tal óvulo seja o do par oficial paterno. Bastardos não são contados entre os herdeiros.

Historicamente, o rankeamento é próprio da civilização ocidental. Não é novidade – como muitos podem pensar – de um sistema capitalista nos modos atuais. O buraco é mais embaixo. As disputationes da escolástica medieval eram aplicadas como método avaliativo no qual os vendedores eram premiados. Os colégios sob o modus parisiensis, inclusive os jesuíticos, também aderiram a prática. Os corpos que não atingiam as expectativas eram severamente castigados.

Pois bem, ainda hoje em dia, desde os anos iniciais, a criança é submetida às classificações de acordo com sua trajetória de vida. A estrelinha ganhada diante de uma tarefa bem-feita. Por outro lado, a caneta vermelha entra em ação quando o aluno falta, não corresponde com o esperado ou tem mau comportamento. Ano após ano, listas e mais listas preenchem o currículo de mais um ser humano que é moído pela desigual, injusta e indiferente classificação. Os reflexos disso são alunos desmotivados, pelo desempenho inferior ao do colega, ou motivados, pela selvagem competição.

O sonho do curso tão desejado torna-se uma utopia, frente a dificuldade de acesso. O desejo da utopia, muitas vezes, é motivado pelo prestigio tolo de outro rankeamento. O ranking das “principais universidades” realizado por qualquer que seja a consultoria internacional ou guia do estudante. E o curso, dentro da universidade, por vezes é medido pela relação candidato/vaga. Quão prestigiados são os cursos que possuem relação candidato/vaga maior do que 20!

Uma balela. Só revela o tamanho da crueldade que inclui 1 para excluir outros 19 (ou mais). Quantidade de vagas insuficientes e condições de estudo desiguais revelam os problemas estruturais que envolvem a educação e a sociedade. Quantos dos 19 “incapazes” terão condições de tentar novamente? Ou, quantos dos 19 tiveram chance de ter acesso ao ensino de qualidade na primeira vez? Ou, ainda: quantos, além dos 19, nem chegaram a “tentar a sorte” por terem que ingressar no mercado de trabalho?!

E assim caminha a humanidade… quantificando a vida. Número de troféus e prêmios, de curtidas e seguidores nas redes sociais, de artigos em periódicos A1 e livros publicados. Mal o pré-vestibulando vira acadêmico e já precisa começar a pontuar no lattes. São os números tomando conta do humano. Não é à toa que “top” virou sinônimo de “muito bom”, “incrível” ou qualquer adjetivo que ressalte uma qualidade positiva. Novamente, são os números tomando conta do humano: naturalizando a concorrência, legitimando a desigualdade e excluindo a maioria, ao passo que aplaude os “tops”.

Imagem de destaque: Marcos Santos/USP Imagens