Foto: Gustavo Mazzeti

Ação cultural e a universidade na cidade

Qual o cenário da cultura em nossa cidade? E qual o papel desempenhado pela universidade neste cenário?

Com estes questionamentos iniciais o Pensar a Educação, Pensar o Brasil realizou ontem, 26, na Faculdade de Educação da UFMG a sétima conferência do Seminário Anual de 2017, com o tema A universidade e a cidade. A proposta do debate se voltou para a relação entre A universidade e o cenário cultural e para isto estava presente Bya Braga, professora no curso de Teatro na Escola de Belas Artes da UFMG e Rafael Barros, antropólogo e folião e um dos responsáveis pela retomada do carnaval em Belo Horizonte. O radialista Elias Santos, da Rádio Inconfidência, mediou a conversa que visou alcançar as diferenças e aproximações entre esses dois lugares de pertencimento.

Inseridos em um contexto de disputa acerca da importância das manifestações artísticas e de sua função social em nossos dias, os convidados trouxeram reflexões acerca da relação da cultura baseada em um chaveamento do direito à cultura e no papel do estado na defesa desse direito. Bya Braga caracterizou o cenário cultural de uma cidade como ações ali endereçadas e praticadas, e com isto, desenhou um conceito de cidade que se estabeleça permeável às disputas cotidianas endereçadas a um convívio pacífico.

Professora Bya Braga.  Foto: Gustavo Mazzetti

Também esteve no horizonte de problemas traçados pela professora a relação distorcida e problemática que confunde o bem público e o privado gerando desequilíbrio das relações de consumo e de produção de bens culturais, destacando a necessidade de distanciamento da cultura da noção de consumo capitalista.

Outro ponto importante em sua fala diz respeito a defesa do campo das artes como um campo de artesania, ou seja, do fazer que se transmite, se aprimora, destacando nesta dinâmica não só o papel da crítica, como também da importância na transmissão deste saber, ou seja, em seu caráter formativo. Com isso, a atriz elaborou uma crítica poderosa aos modelos culturais que mobilizam uma subordinação epistêmica restringindo outras manifestações culturais, assim como a concentração de poder em repertórios que, em sua função de desvelar jogos de poderes acabam invertendo esses poderes.

Rafael Barros. Foto: Gustavo Mazzeti

A partir destes pressupostos em sua fala, Bya Braga se colocou na defesa de um campo de produção e transmissão de saber, destacando o caráter formativo das artes e na defesa destes processos ancorados em práticas que valorizem o convívio humano, o respeito às diferenças não impondo o pensamento único. Com isto, destacou a universidade como fundamental na promoção de ações culturais na cidade visando a composição de cenário cultural amplo, diverso e transversal, destacando a importância dos processos educacionais e de formação do campo das artes.

Rafael Barros deu seguimento ao debate pontuando a importância da escuta como um imperativo dos tempos que vivemos e definiu a sua participação como um relato de experiência do vivido a partir das experiências na Praia da Estação, no carnaval e no congado.

Rafael iniciou destacando o cenário da cultura na cidade a partir do contexto político de ameaça às manifestações políticas e culturais e da importância dos espaços legislativos a partir do seu papel de constituição de ações na cidade e de participação popular. Sua fala deu destaque a defesa da política, da mediação dos conflitos e das relações mais horizontais e diversas.

O ativista trouxe o carnaval em sua dimensão política, dando destaque a festa como expressão da cultura a partir da capacidade de inverter o mundo e atrair olhares e proporcionar experiências ampliando a rede de relações urbanas, as ligações com a cidade e com outros. Em sua fala buscou trazer a experiência do viver junto nas cidades atravessada no tempo por diversas expressões e constituições. Defendeu que o modelo ocidental moderno não é único e que é preciso pensar sobre outras formas de estar junto no contexto da cidade.

Ele ainda defendeu os conflitos na cidade a partir da possibilidade de sermos mobilizados em direção à transformação e contextualizou o carnaval como a retomada da rua a partir do enfrentamento da letargia no encontro com outros. Em sua argumentação a sociedade também oferece experiências formativas e fez um chamado à universidade não apenas na participação, mas no estabelecimento de formas de intervenção na cidade potencializando seu caráter formativo.

Foto: Gustavo Mazzeti

Por fim, Elias Santos falou sobre a importância dos processos comunicativos como imperativo da cultura e de sua expressão. Defendeu o papel da comunicação pública como importante para a defesa da cultura, da diversidade e da manutenção das relações sociais horizontalizadas. Destacou a autonomia dos sujeitos nos processos comunicativos e da diversidade de padrões de comunicação, destacando a importância do respeito a essas diferenças.

 

Vanessa Macêdo