Artigo

Divagações sobre a escrita de cartas em tempos de guerra e (des)informações

Bogotá, 20 de outubro de 2017

Estimado companheiro, Sandro!

Fiquei bastante “tocado” com a forma e o conteúdo de sua carta! Antes de mais nada, agradeço a consideração e a estima! Para nós que temos a palavra como ferramenta de trabalho, torna-se imprescindível retomar todas as possibilidades de comunicação – especialmente nestes tempos obscuros que vivemos em nosso país – para potencializar o encontro e a troca. Muitas razões justificam o desaparecimento desse gênero textual, mas incontestavelmente o avanço tecnológico e a cultura de convergência midiática foram preponderantes para a carta cair em desuso. Na atualidade, é fácil copiar, colar, enviar e, imediatamente, receber a resposta, com apenas alguns poucos movimentos dos dedos. Por vezes, o remetente nem finaliza a leitura de determinada postagem recebida e se encarrega de, imediatamente, reenviá-la para outros, sem a devida compreensão da mensagem enviada. Tempos de pouca reflexão e de muita informação!

Então, meu caríssimo amigo, por ter a convicção de que quando a palavra é desprovida de pensamento crítico torna-se objeto descartável e supérfluo, é por significar o contrário disso é que o conteúdo de sua carta me toca! Sei que foi preciso dedicar tempo para escrevê-la, lapidando cada fragmento ou refazendo algumas passagens mais de uma vez, para tornar, dessa maneira, um texto interessante, inteligível e consistente. Como se não bastasse, sua mensagem apresenta vários links que enriquecem e tornam o seu pensamento mais eloquente. Certamente, fruto de exaustiva pesquisa. Dessa maneira, o que me chega são ideias produzidas e não copiadas. Assim, sua mensagem apresenta um certo requinte de quem teve o cuidado de manifestar, por meio da escrita, os sentimentos e as ideias que invadem a alma. Essa forma de escrever, me lembrou o “anúncio de João Alves”, de Carlos Drummond de Andrade! Você conhece? Nele, de maneira inigualável,o autor descreve, com esmero,uma mula desaparecida nas cercanias de Itambé do Mato Dentro, nos idos de 1899. Anos mais tarde, esse anúncio retorna na voz do poeta itabirano com as seguintes palavras:

55 anos depois, prezado João Alves Júnior, tua besta vermelho-escura, mesmo que tenha aparecido, já é pó no pó. E tu mesmo, se não estou enganado, repousas suavemente no pequeno cemitério de Itambé. Mas teu anúncio continua um modelo no gênero, se não para ser imitado, ao menos como objeto de admiração literária (DRUMMOND, 1957).

E o tempo passou para João Alves e para Drummond. Hoje, ambos repousam em seus respectivos aposentos eternos. No entanto, a maneira de suas escritas ainda perdura. Quiçá, não morrerá nunca, exatamente pela “peleja” despendida nas diferentes composições literárias. O próprio Drummond nos assegura que lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã…

Para nossa reflexão fica, então, o seguinte: após 60 anos da escrita da crônica de Drummond e 118 anos da composição exemplar do anúncio de João Alves, parece-me que pouco aprendemos com a minuciosa forma de escrita de ambos. Estamos muito afobados para nos preocuparmos com os detalhes da escrita. Nossa escrita, nesses tempos “cabulosos”, se dá à base do “fast-food”: por meio dos dedos, pensamos e, através deles, encaminhamos o pensamento ou o que os outros pensam por nós. Nada de preocupação com forma, estilo, expressividade, originalidade, clareza, coerência, coesão… Temos na palma da mão uma maquininha que após escrita a mensagem, faz a correção das palavras e assim, de maneira instantânea, digitamos, enviamos e recebemos notícias de perto e de longe, em tempo real. Incontestavelmente, uns dirão, em tudo isso, há inúmeras vantagens. Para outros, no entanto, tanta tecnologia deixa o sujeito mais lento… mais preguiçoso! Exemplo disso, é a televisão que todos temos em casa. Esse aparelho contribui para o repouso do pensamento de muita gente. Ao apertarmos os botões do controle remoto, temos gente refletindo em nome de outros. Terceirizamos o nosso pensamento? Não precisamos pensar mais, pois a mídia se encarrega disso? E como, geralmente, o que ela afirma quase não reflete o pensamento da maior parte da população, viramos massa de manobra, e sem reflexão, muitos de nós, milhares/milhões de brasileiros, ocupam as ruas e derrubam uma Presidenta eleita pelo voto popular. E na sequência, de maneira quase instantânea, todos nós pagamos o preço/pato por utilizar outras partes do corpo e não a cabeça para fazermos a leitura do mundo! Qualquer sociedade sem educação e sem senso crítico, sucumbe! Estamos trilhando esse caminho?

No nosso caso, como você bem pontua, por meio das cartas, podemos tratar das artes, das nossas pesquisas e trabalhos, desses tempos esquisitos da política brasileira, dessa experiência tão densa e rica que estou vivendo aqui em Bogotá e de “otras cositas más”. Podemos até convidar mais amigos para compartilhar essa experiência conosco! E é isso que farei ao finalizar essa carta: vou convidar uma companheira de luta e ofício para contar a experiência que também vive fora do Brasil. O bacana das cartas, como dizia Mário de Andrade, é que elas não têm o “ranço” dos textos teóricos, pois tudo pode ser dito sem graves implicações, podendo as opiniões e críticas serem registradas sem cerceamento ou patrulhamento ideológico e, se não forem imediatamente compreendidas, cabe explicações posteriores.

Pois bem, já que você mencionou a distância espacial existente entre nós, quero registrar que não foi fácil chegar em Bogotá. Para isso ocorrer, foi uma longa e dura jornada de lutas. Durante um bom tempo até duvidei que daria conta de conseguir realizar essa etapa do doutorado latino-americano, aqui, na Colômbia. Posso explicar: como sou professor da rede municipal de educação de Belo Horizonte, havia restrições que impediam o afastamento do trabalho. Os prefeitos, como todos sabemos, assim como os patrões de modo geral, devem acreditar que o direito à formação é privilégio, dessa maneira, só conseguimos os nossos intentos com muita luta. Na Prefeitura de Belo Horizonte, na Secretaria de Educação, estava proibido qualquer tipo de licença para qualificação profissional. Assim, após passarem pelo executivo municipal uma sequência de secretários que ajudaram a restringir o acesso à pós-graduação strictu-sensu, somente com a chegada da atual Secretária Municipal de Educação de Belo Horizonte, professora Ângela Imaculada Loureiro de Freitas Dalben – que também foi professora na Faculdade de Educação da UFMG – essa liberação voltou a ser concedida. Estamos torcendo para que esse direito seja ampliado para os demais professores que fazem mestrado e doutorado. Esse preâmbulo sobre a chegada em Bogotá é apenas para dizer que, se agora, no atual momento político que atravessamos, não está fácil para a classe trabalhadora, em outros momentos, com outros mandatários, também nada foi conquistado sem luta.

Então… cheguei aqui e, do lado de cá, tenho acompanhado as confusões em que estamos nos metendo aí, no Brasil! Há tantas ocorrências de difícil explicação que me limito a ficar calado quando alguém quer saber sobre a crise política que atravessamos. Digo atravessar, porque sei que essa fase vai passar. Aqui, é interessante o respeito que nossos hermanos demonstram pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Falam dele com conhecimento de causa, como se o Lula tivesse sido Presidente da Colômbia. De igual maneira, é gratificante perceber como os bogotanos conhecem e respeitam o educador Paulo Freire – o grande patrono da educação brasileira, que alguns movimentos brasileiros, de extrema direita, desqualificam e desejam destronar. Aqui, é comum ver estampado nos muros de algumas escolas, o rosto de Paulo Freire. Como demonstração desse apreço, envio, abaixo, duas fotos tiradas em distintas e respeitadas instituições: a primeira, no Instituto Pedagógico Nacional e a segunda, na Universidad Pedagógica Nacional – ambas, públicas:

Exposição no Instituto Pedagógico Nacional, de Bogotá, em comemoração aos 90 anos da instituição

 

Figura de Paulo Freire estampada numa das pilastras da Universidade Pedagógica Nacional, no Bairro Chapinero, Bogotá

 

Para não alongar mais, meu amigo, finalizo, retomando algumas formulações que você fez em sua carta sobre o Museu de Fernando Botero, localizado no centro histórico de Bogotá: o artista doou 123 obras (lindas e famosas) para compor, juntamente a outras 85 obras não autorais, um acervo mantido pelo Banco da República da Colômbia. O lugar é fantástico e por ele passam 1000 pessoas por dia e 2000 estudantes por mês, incluindo crianças. Para visitá-lo, não há restrição de gênero, geração, classe (aliás, não se cobra entrada), religião… Ainda que “desnuda” (rsrsrs) segue uma das obras!

                                                  

Obra Colombiana, de Fernando Botero (Medellín/1999) – Foto produzida por Joaquim Ramos

Para finalizar estas “mal traçadas linhas”, quero te pedir desculpas por não conseguir dialogar com todo o conteúdo de sua carta, no entanto, tendo em vista o quanto fiquei tocado com as reflexões feitas por você, de modo especial, em relação aos tempos sombrios da nossa política, tempos esses em que a nossa sanidade mental é posta à prova a todo instante, gostaria de convidar a professora Maria Inês Mafra Goulart – que também está vivendo uma experiência muito interessante no Canadá – para me ajudar em tais discussões, pois nada melhor do que dividir com os amigos as nossas alegrias e também aquilo que nos assombra, coletivamente. Como disse o “filósofo” Raul Seixas: “sonho que se sonha só, é só sonho; sonho que se sonha junto, é realidade”. Neste momento de ruptura democrática e de sequestros de direitos, vamos dividir sonhos e pesadelos. Assim, de alguma maneira, nos irmanamos no sentido literal do termo! Passo a palavra para a professora Marinês!

Forte abraço! Chegando ao Brasil, vou te visitar em Diamantina, meu irmãozinho de tantas lutas e conquistas!

De seu amigo, Joaquim Ramos