2016 numa Dimensão Geracional

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Por Luciano Mendes de Faria Filho

Sou de uma geração que entrou para a política ali pelos finais da década de 1970, cujo primeiro grande investimento foi o fim do regime militar e a primeira grande manifestação, e derrota, foram as Diretas Já! Acolhemos os que voltavam do exílio mas, com raras exceções, a luta pela anistia nos chegou apenas inercialmente, pela continuidade das lutas e de  pessoas que nos precederam.

Se a não aprovação da eleição indireta pelo Congresso Nacional naquele abril de 1984 foi desoladora, não menos triste foi ver o ex-presidente da Arena, partido do Governo Militar, o senador José  Sarney, assumir a Presidência da República no lugar de Tancredo Neves. Já na controversa posse de Sarney, que segundo alguns juristas não poderia ter assumido,  pois não existe vice-Presidente de Presidente que não tomou posse,  estavam postas as artimanhas políticas e jurídicas que marcariam a lenta, segura e nunca concluída transição do regime militar para o civil no Brasil.

Não bastasse tudo isso, a derrota da proposta de uma Assembleia Constituinte exclusiva  pelas mesmas forças que impediram as eleições diretas parecia jogar uma pá de cal nas pretensões de um maior avanço democrático, político e social no país. No entanto, a mobilização dos movimentos sociais mais diversos em aliança com os partidos políticos de esquerda alterou substancialmente a dinâmica prevista para o Congresso Constituinte. A aprovação e promulgação da Constituição Cidadã em outubro de 1988, nos dava um novo alento e nos enchia de esperanças de que, enfim, seria possível que o Brasil deixasse de ser o  país do futuro.

Promulgada a Constituição e findo o governo Sarney e seus planos mirabolantes para controlar a inflação, finalmente, teríamos eleições diretas. O resultado, com a eleição do Collor como 1º Presidente da República após a Ditadura Militar expressa o investimento das forças mais conservadoras, as mesmas de sempre, agora sustentadas pelo poderio do maior de seus eleitores e sustentadores: a Rede Globo de Televisão! Mas, certamente isso não expressa tudo que aconteceu na campanha. Apesar de tudo, pela primeira vez a gente sentiu, naquelas eleições, que a esperança podia vencer o medo!

Nos anos vindouros, tivemos: a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente, o impeachment do Collor, o quase fechamento do CNPq, o controle da inflação no governo Itamar Franco, a eleição de Fernando Henrique  Cardoso por duas vezes, os planos de 20 anos no poder do Sérgio Motta, as reformas do Estado pretendidas por Bresser Pereira, o desmonte das universidades federais pelo MEC sob a direção de Paulo Renato e Maria Helena Guimarães, a universalização do ensino fundamental,  a articulação dos movimentos sociais no campo e na cidade, os desejos de reinvenção democrática do Brasil.

Quando a coalisão de centro-esquerda, liderada pelo PT e por Lula, propõe um grande pacto em que os anseios da população poderiam ser atendidos sem que fossem colocados em questão os privilégios das forças mais conservadoras e enriquecidas da nação e sem que fossem necessárias as “reformas de base” reclamadas desde o final dos anos de 1950, parecia um cenário  fictício em que todos poderiam ganhar. E, de fato, os anos posteriores mostraram que, pelo  menos aparentemente, isso seria possível.

Quando, em 2013, as juventudes vieram para a rua e ocuparam o espaço público, há quem tenha vislumbrado uma possibilidade de reencontro do país com ele mesmo (e com seu futuro!). No entanto, a diversidade da pauta, a insistência na espontaneidade e na falta de lideranças do movimento, a incapacidade do governo federal em responder às reivindicações estruturais dos movimentos, a forte repressão policial, dentre outros elementos, criaram as condições ideais para que os grupos mais conservadores e reacionários, capitaneados pelos grupos midiáticos tradicionais, capturassem  parcela significativa dos movimentos e dirigissem suas ações, de forma muito contundente  e agressiva, contra o governo da Presidenta Dilma e contra as conquistas advindas  dos governos anteriores.

O ano de 2016 mostrou, de forma cabal e definitiva, que o sonho de transformar o Brasil,  deixando intocados os privilégios, preparava, na verdade, um grande pesadelo. Enquanto foi possível conciliar a integração de expressivos setores da população ao mercado de consumo e a alguns direitos básicos de cidadania com os interesses do grande capital nacional e estrangeiro e com os interesses mais mesquinhos de parte significativa dos políticos profissionais brasileiros, inclusive das fileiras da esquerda, foi possível também dizer que o pais do futuro finalmente se encontrava com seu presente.

No entanto, quando a cidadania formal se mostrou incapaz de suportar a onda de invenção democrática e de direitos que se elaborava e quando se atestou a incompatibilidade entre  a manutenção dos privilégios das elites e do crescimento dos ganhos do capital nacional e internacional e uma real justiça social com distribuição de renda e garantia de direitos,  as forças conservadoras e reacionárias que sempre estiveram no poder, ou muito próximas a ele – basta ver o papel mesquinho e vil do vice Presidente da República nisso tudo – mostraram sua cara deslavada e desapiedada de sempre. O investimento na manutenção e na expansão das nossas históricas desigualdades reuniu as forças antidemocráticas, imperialistas e entreguistas mais diversas.

2016 finda com a quase absoluta vitória das forças conservadoras e reacionárias.  Em praticamente todos os campos essa vitória é avassaladora e nos leva a um passado que queríamos superado. O passado se repete aqui não como farsa, mas como tragédia! No campo dos direitos – os mais diversos – a regressão não cessa. E, como sabemos, isso não se dá apenas no plano federal. Nos estados e municípios a tragédia parece infindável.

Se em 2016 vimos a reação mais ou menos organizada de vários movimentos sociais e de alguns partidos políticos, a tônica, no entanto, entre muitos grupos de esquerda, liberais e sociais democratas foi de apoio descarado ou tímido ao golpe, não parecendo acreditar que a cassação do mandato da Presidenta era apenas o momento inicial de uma grande tragédia econômica, política, social, cultural e tudo o mais. Outros setores da população, embalados pelo ostensivo discurso midiático, somente agora parecem estar acordando sob as chicotadas dos sucessivos golpes da polícia e das políticas estabelecidas (ou em discussão) pelo “novo governo” do Temer.

Enfim, 2016 colocou em evidência que é preciso pensar  e fazer diferente do que foi feito até aqui, pelas esquerdas, se queremos mudar a cara do país. Talvez parte desse “pensar e fazer diferente” já esteja em curso nos movimentos de resistência aos golpes estabelecidos ao longo do ano, e que certamente se prolongarão no ano de 2017. Das ocupações de escolas aos ensaios de inovadoras (e coletivas) produções audiovisuais; da crítica às mídias tradicionais às novas formas de ocupação do espaço público, dentre outras, é possível vislumbrar criativas formas de reinvenção da política e da democracia.

O Brasil de hoje é, certamente, muito diferente daquele dos anos finais da década de 70 e início dos anos 80. E, em muitos aspectos, mudamos para melhor. Mas, certamente, não será ainda a minha geração que entregará aos nossos  filhos e filhas aquele país com que sonhamos com a Constituição de 1988, por exemplo. O tempos são sombrios e as estacas que fincamos lá mais à frente, no campo “inimigo”, estão sendo arrancadas uma a uma e trazidas de volta para uma zona em que a civilidade e a barbárie, para dizer pouco, estão se confundindo. Espero que aqueles e aquelas de minha geração, de muitas outras, ainda tenhamos força e coragem para os novos e difíceis enfrentamentos que estão em curso e/ou que virão por aí.