O social na fronteira das ciências

Por Luciano Mendes de Faria Filho

Com as reformulações anunciadas no programa Ciências Sem Fronteiras no final do mês passado, temos visto várias manifestações a respeito dessa importante iniciativa de internacionalização da formação dos(as) jovens brasileiras(as). Algumas reflexões já haviam sido explicitadas pelo ex-PreCSFsidente da CAPES, Jorge Guimarães, e pela professora da UNB, Concepta McManus, no final de junho. Mais recentemente, muitas outras posições apareceram no debate, inclusive aqui no Blog,  sendo que uma das mais consistentes foi a exposta no artigo de José Celso Freire Junior, presidente da Associação Brasileira de Educação Internacional (Faubai), publicado recentemente no Jornal da Ciências, da SBPC.

No debate na mídia e, mesmo, entre os acadêmicos, pouco ou nada se disse sobre dois aspectos importantes: primeiro, o fato de que o CSF, contrariando ao que foi prometido quando do seu lançamento,  estava se apropriando de boa parte dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Ciência e  da Tecnologia (FNDCT) e, portanto, esvaziando os cofres de órgãos importantes como o CNPq; segundo,  que o programa excluí as ciências humanas e sociais.

A respeito desse último aspecto, pareceu-me pertinente reeditar, aqui, um texto publicado logo após o lançamento do Programa, em 2011. Penso que, no fundamental, os argumentos ainda são atuais.

Artigo de Luciano Mendes de Faria Filho publicado no jorna Estado de Minas em 03/09/11 e no JC e-mail 4337, de 05 de setembro de 2011.

O governo federal lançou recentemente, com grande alarde e apoio da comunidade científica brasileira, o Programa Ciência sem Fronteiras. Segundo informações oficiais, o programa pretende beneficiar 75 mil pessoas em quatro anos. A maioria receberá bolsa para estudos no exterior em várias modalidades. Para ter uma ideia, apenas uma das agências federais envolvidas, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pretende conceder 14 mil bolsas para alunos de graduação estudar de seis meses a um ano no exterior.

O programa é muito interessante e apresenta grandes méritos, daí a quase unanimidade com que foi acolhido pela comunidade científica. No entanto, é de lamentar a ausência das ciências humanas e sociais. Talvez isso se deva à ideia de que o país ganharia muito pouco, ou nada, com o envio de estudantes dessas áreas ao exterior. O contrário ocorreria com as áreas das ciências exatas, das engenharias e de todas as outras que aparecem como prioritárias para o programa.

Talvez devêssemos discutir se os estudantes de graduação das ciências exatas e das engenharias, por exemplo, vão para o exterior aprender cálculo, geometria, física ou química geral. É evidente que não. Isso eles poderiam aprender, alguma vezes, muito melhor, no Brasil. Trata-se, é claro, de oportunizar a esses jovens entrar em contato com outras culturas acadêmicas, científicas e políticas, as quais, acredita-se, propiciariam melhores condições para que se engajem na produção de uma ciência mais comprometida com o desenvolvimento tecnológico, mais próxima da indústria do que dos laboratórios universitários, por assim dizer. O fundamental, parece-me, é que o programa favorecerá a esses jovens universitários brasileiros o encontro com o outro, com o estrangeiro e a construir novas maneiras de ver o próprio Brasil. Enfim, trata-se de uma oportunidade criada para esses profissionais serem não apenas mais competentes, mas também mais sábios.

O que é difícil de entender é por que o programa não supõe que essa experiência de contato com o outro não é necessária justamente para aqueles profissionais formados pelas ciências humanas e sociais, já que eles, no cotidiano do seu trabalho nos serviços públicos, nas escolas, nos movimentos sociais etc., precisam exercitar-se no atendimento, no cuidado, na relação com o outro. Será que para a formação desses profissionais não seria até mais importante essa experiência de contato com o estrangeiro, com o outro, com a alteridade, para construir novas e mais ricas possibilidades de atuarem profissionalmente? Será que não estamos, na verdade, nos engajando numa política científica que supõe que o desenvolvimento social virá do desenvolvimento científico? Será que, capturada pela lógica econômica, a lógica do Programa Ciência sem Fronteiras se esquece de que são os cientistas sociais os gestores do social e que, portanto, eles também têm que ter uma formação adequada a estes novos tempos? Será que nossos colegas que produziram o programa e a presidente da República, que o sancionou, imaginam que é possível desenvolvimento social sem o aprendizado de uma cultura política democrática sólida, sem a convivência da diversidade que o contato com o outro supõe ou sem o conhecimento produzido e cultivado pelas ciências humanas e sociais?

Quem sabe se o programa rompesse não apenas as fronteiras geográficas, mas também entre as ciências, considerando-as todas relevantes para o desenvolvimento social, não teríamos melhores condições de fazer deste não apenas um país de grande desenvolvimento econômico (já somos a sétima. economia do mundo) e científico (já somos o décimo terceiro em publicação de artigos indexados), mas também mais democrático e de melhor distribuição de renda?