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A educação no coração do Império: convite à leitura de um livro inexistente

Luciano Mendes de Faria Filho

(Texto publicado originalmente no jornal Pensar a Educação em Pauta n.124

NOTA: Em 2014 a professora Mirian Warde, uma de nossas maiores referências no estudo da história da educação brasileira, reuniu um conjunto significativo de textos sobre a história da educação nos EUA com o propósito de organizar um livro sobre o assunto. No entanto, depois de tudo pronto, ela não encontrou editora que se dispusesse a publicar o livro, apesar de seu ineditismo. Diante disso, a professora organizou dois dossiês para revisas nacionais. Um deles saiu na Revista História da Educação e o outro sairá, em breve, nos Cadernos de História da Educação. Para o livro que seria publicado, ela pediu-me um Prefácio. É a este prefácio jamais publicado que o leitor do Pensar a Educação em Pauta tem acesso neste momento.

PREFÁCIO

“Pensamento

Da Igualdade – como se me incomodasse dar aos outros as mesmas oportunidades e direitos que tenho, como se para os meus próprios direitos não fosse indispensável que todos tivessem os mesmos”. (Walt Whitman. Folhas de relva. Ed. Civilização Brasileira, 1964, p.128)

O livro que o leitor tem em mãos é, certamente, a mais desconcertante e inusitada obra lançada na área de educação, no Brasil, nos últimos anos. Afinal, como explicar, dentro da mais recente tradição pedagógica e, porque não, política, que vicejam no campo educacional brasileiro, a publicação de um livro que trata da história da educação nos Estados Unidos da América?

Ainda está por ser feita uma análise mais detalhada dos motivos que fazem com que ao mesmo tempo em que a força militar, cultural, econômica, política e acadêmica dos EUA se faz presente nos mais recônditos territórios de um mundo cada vez mais globalizado e, inversamente, localista, ele deixe se ser, no Brasil, objeto de um investimento analítico mais acurado.

Se, afinal, os EUA nunca deixaram de ser, nos últimos 100 anos, uma importante fonte de inspiração (e/ou, de financiamento!) de nossas políticas e pesquisas educacionais nem deixou de ser um destino importante para gestores e acadêmicos que queriam conhecer e/ou aprofundar seus estudos no campo da educação, porque motivo a história da educação daquele país teria deixado de interessar aos pesquisadores da educação brasileiros, incluindo-se aí os historiadores da educação?

A resposta a esta questão não é fácil, mas certamente seria reveladora dos processos políticos, culturais, acadêmicos e, mesmo, epistemológicos por meio dos quais temos construído a mais recente tradição de pesquisa educacional no país. Com isso, quero dizer que o esquecimento da importância da história da educação nos EUA pela pesquisa educacional brasileira, incluindo aquela que ocorre no campo da história da educação, não se explica, obviamente, apenas pelo antiamericanismo de seus praticantes ou pelas dificuldades linguísticas que envolvem a aproximação com aquele país.

Talvez aja alguma coisa na cultura, na política e, afinal, na história estadunidense que nos incomode e, por isso, preferimos não conhecer. Melhor, neste caso, é olhar para a Europa, este país-continente unificado por nossas lentes que, ao fim e ao cabo, acabam por nos irmanar numa sempre atualizada condição de subalternidade. Ou para a África, ou, quem sabe, para a América Latina, numa quase sempre vã tentativa de retomar uma origem perdida, cindidos que fomos, em boa parte, pelos imperialismos dos “outros” ou, talvez, para exercer nosso próprio imperialismo. Será esse o melhor caminho para a construção de alternativas políticas e de políticas de conhecimento que, dialogando com as melhores tradições ocidentais, busquem dar respostas criativas e satisfatórias às grandes questões de nosso tempo?

A grande originalidade deste livro talvez seja a de romper com o silêncio e buscar conhecer este “incômodo outro” que nos ronda. Sem partilhar da crença absoluta nos poderes da razão, a organizadora e autores(as) que a acompanham nessa aventura, cumprem um importante papel de nos ajudar a dizer deste outro que nos fascina e amedronta, a partir de um maior conhecimento das formas pelas quais foram fabricadas algumas de suas principais instituições educacionais. Aqui, o conhecer pode ter um efeito de aproximação e, porque não, de construção de um justo distanciamento, que é obstruído, justamente, pelo desconhecimento.

Talvez tenha sido justamente este fascínio, acompanhado por um certo temor, que tenha produzido as melhores interpretações estrangeiras sobre a cultura americana, tais como aquelas de A. Toquevile, de A. Gramsci e, no caso da educação, aquela de H. Arendit quando já radicada nos Estados Unidos, mas sem nunca deixar de lançar um olhar de estranhamento sobre o país que a acolheu.

No caso brasileiro, talvez tenhamos primados ora por um ora por outro sentimento. Daí as obras de negação ou de adesão absolutas ao chamado “modelo americano”. No entanto, temos que concordar, que em se tratando do campo da educação, seja aderindo ou negando tal modelo, os intelectuais e políticos interessados na cultura educacional e pedagógica daquele país contribuíram para colocar em circulação, entre nós, uma série de obras que possibilitavam conhecer melhor a constituição do sistema estadunidense de educação. Nas últimas décadas, justamente quando se intensificaram os intercâmbios acadêmicos pós-graduados, muito pouco se traduziu ou se publicou, aqui, sobre a história da educação daquele país. Talvez, mais uma vez, tenhamos dado ênfase mais nos modelos e nas teorias do que no entendimento das condições sociais, econômicas, culturais e pedagógicas que possibilitaram a elaboração de tais modelos e de tais teorias. Mas, não é isto também que temos feito em relação à França, à Espanha e, mesmo, a Portugal, só para ficar em exemplos que nos são muito próximos e caros?

Este livro busca, justamente, atuar na contramão deste movimento. Nele pesquisadoras brasileiras e pesquisadores estadunidenses buscam traduzir a história da educação daquele país para o leitor brasileiro. Ele busca nos dar a conhecer este estranho outro, tão próximo e distante de nós que são os Estados Unidos da América. Em cada um e no seu conjunto, os textos buscam nos revelar aspectos particulares da história da educação americana e, ao fazê-lo, vão nos ajudando a entender a gestação e consolidação de um dos modelos mais marcantes de constituição de sistemas públicos de educação na modernidade.

Os autores submetem ao tratamento historiográficos temas bastante variados como a educação infantil, a escola primária, o sistema universitário, as instituições de formação de professores, o ensino de matemática, de educação cívica, o currículo da escola “básica” estadunidense, dentre outros. Do tratamento do conjunto dos temas, ressaltam, por um lado, a pujança da sociedade civil americana na discussão dos temas relacionados à educação e, de outro, a pluralidade de modelos que atravessam de alto abaixo a educação daquele país.

Não sendo objeto específico de nenhum dos textos, a cultura política estadunidense emerge com força em praticamente todos eles. Cultivando uma noção de público que, contrariamente ao que viceja entre nós, não se confunde com o estatal, intelectuais, políticos e organizações civis dos Estados Unidos lograram produzir um sistema de educação marcado, ao mesmo tempo, pela pluralidade e pela integração. Ou, dizendo de outra forma, é um sistema plural inclusive, e sobretudo, por causa das mais diversas formas de integração horizontal e vertical que ele possibilidade, seja no âmbito mesmo do sistema educacional seja deste com as demais dimensões da vida nacional.

Por ser fruto de um grande investimento da sociedade estadunidense, e não apenas do Estado, o sistema escolar, em suas variadas formas de objetivação, está sujeito a grandes pressões dos mais diversos grupos de interesse. A respeito disso, um dos textos mais reveladores é justamente aquele que trata das universidades americanas. Como demonstra Maria das Graças M. Ribeiro em A Educação Superior Norte-Americana: gênese de um modelo, nascido e consolidado graças à ação, em boa parte, da sociedade civil, o sistema universitário ou, mais propriamente, o ensino superior estadunidense, é o mais complexo e dinâmico do mundo. Tal complexidade pode ser observada tanto na multiplicidade de tipos e vocações institucionais, quanto nos modos como estas instituições se articulam entre si e com o mundo da produção, por exemplo. No caso específico das instituições americanas, isto possibilitou uma muito sui generis relação com o aparato produtivo, fazendo com que a pesquisa se transformasse numa dimensão fundamental da força econômica estadunidense, tanto quanto possibilitou organização e manutenção de todo um aparato da análise crítica deste mesmo sistema ancorado, ele também, nas maiores de instituições de pesquisa do país, o qual teve, e tem, repercussões internacionais, seja pela circulação de sua produção teórica, seja pelas oportunidade de formação criadas para pesquisadores do mundo inteiro.

No entanto, fortemente ancorado na sociedade civil, inclusivo, pluralista e amplamente democrático e garantidor de direitos, o sistema educacional, demonstram os textos, nunca deixou de ser desigual. Como no resto do mundo, também nos Estados Unidos, a liberdade parece ser o avesso da igualdade. Os negros, os latinos e os indígenas, sobretudo, que o digam! Mas, de todo modo, lá, muito mais do que aqui, a escola foi amplamente mobilizada para construir as condições mínimas para que pessoas do mundo inteiro pudessem participar do grande banquete da civilização. E que pudessem lutar justamente contra o modelo de civilização que se construía, ainda que isto não contradiga a ideia de que um dos fundamentos da força da cultura política estadunidense residiu, sempre, no seu peculiar modelo de escolarização pública.

Essas são algumas das características que, talvez, cause algum incômodo a nós Brasileiros, não apenas atavicamente apegados a privilégios, mais do que a direitos e, por isso mesmo, perfeitamente confortáveis com uma noção de público como sendo sinônimo de estatal. Tal noção, além de nos desobrigar com a coisa pública – pois afinal, esta é uma responsabilidade do “Estado” – nos permite, sobretudo às camadas médias, a defesa intransigente de certas política públicas pouco inclusivas e garantidoras de direitos, mas profundamente relacionadas à garantia dos privilégios que fazem, ainda hoje, o Brasil ser uma dos países mais desiguais do mundo.

Nesse sentido, o livro organizado pela profa. Mirian Warde, ao nos possibilitar conhecer um pouco mais sobre os Estados Unidos, sua história e, particularmente, a história de seu sistema educativo, cria também a possibilidade de fazermos não apenas um diagnóstico de nossas ignorâncias – sobre “eles” e sobre “nós” –, mas também uma crítica cada vez mais qualificada sobre os modos como os “modelos norte americanos” foram apropriados e mobilizados entre nós para justificar e/ou refutar as mais diferentes políticas educacionais. Que o livro tenha vida longa e que seja o convite a todos que se interessam pelo tema da educação para lançar um olhar crítico e interessado aquilo que se passa (ou que se passou) no coração e nas entranhas de uma sociedade, de um império, que nos fascina e nos amedronta!! Se tal acontecer, tenho a certeza de que, apenas por isso, terá valido a pena o imenso investimento da organizadora para a publicação do livro!